Para ler ouvindo:  

A experiência em um outro país é algo muito individual. Por mais que possamos - ou tentemos - generalizar os costumes e a cultura de uma nação, é no corpo a corpo que criamos a nossa própria representação. Pra uns, melhor. Pra outros, pior. Pra outros, diferente. A questão é: ser estrangeiro é (ser) estranho? Eu acho! Bem estranho. Uma estranheza que nos revela muito sobre o outro, mas também sobre nós mesmos.

Nesses quase 3 meses, vocês têm acompanhado muito das minhas estranhezas e experiências sobre vários aspectos de Hong Kong, inclusive a(s) língua(s). Como um posicionamento só é pouco, resolvi convidar alguns brasileiros que moram em Hong Kong para dar seus depoimentos. Pedi a eles que relatassem como enxergam a questão da comunicação e da(s) língua(s) em Hong Kong; se enfrentaram problemas, passaram por situações interessantes, enfim suas experiências em relação a comunicação.

Com vocês, os depoimentos dos Brazucas!


Não tenho problemas normalmente. Depende muito da área e do tipo de serviço. Uma vez passei por uma situação horrível. Fui cortar o cabelo e fiz o pedido em inglês, o cabeleireiro entendeu que eu queria raspar na máquina zero. Foi horrível! De um modo geral as pessoas se esforçam pra entender os estrangeiros e tentam se comunicar em inglês. Mas saber um pouco de cantonês sem dúvida ajuda muito em coisas do dia a dia, como táxis, restaurantes etc.

Em Hong Kong só utilizo o inglês. Muitas pessoas falam a língua mas o nível de proficiência varia muito. Há dificuldade de comunicação quando o assunto é complexo e nessas horas minha estratégia é utilizar frases simples e depois verificar se a pessoa entendeu.

As pessoas que não dominam o inglês geralmente tentam terminar as conversas rapidamente, muitas vezes sem o entendimento. No entanto, os principais serviços contam com traduções ou com alguma pessoa que fale em inglês. No meu caso, como eu também não falo a língua local, acabo optando pela conveniência de serviços online.

No inicio, por estar mais envolvido com expatriados, eu usava inglês sem problemas. O maior problema desde que cheguei aqui foi me comunicar com taxistas. Mesmo usando nomes de hotéis famosos, muitas vezes o taxista não reconhecia o que eu dizia e era preciso abordar alguém na rua ou usar o tradutor/mapa no telefone pra mostrar onde eu queria ir.

A diferença de tratamento [com os estrangeiros], em especial no comércio, chega a ser de que me tratam como meio "bobo" e fazem de tudo para me ajudar. Percebo que tenho tratamento "privilegiado" por não falar a língua local.

Recentemente fiz um curso de Cantonês e aprendi o básico para sobreviver, especialmente em dar direções. Todo mundo (exceto taxistas) ficam contentes em ver um estrangeiro (gweilo) falando um pouco de Cantonês. A língua é muito bonita, com muitas coisas intrínsecas à cultura de Hong Kong. É uma linguagem muito lógica e muitas vezes um local que não tem um nível de inglês muito avançado responde coisas que soam engraçadas para nós. Um bom exemplo é a frase em inglês "Are you not going to work tomorrow?" que um falante de inglês ou língua latina responderia com "No, I'm not going to work tomorrow", mas aqui em Hong Kong é mais comum responderem "Yes, I'm not working tomorrow" o que realmente é beeeem mais lógico dada a pergunta negativa.

Comunicação em inglês o tempo todo, porém com maior dificuldade com taxistas e comerciantes, os quais se recusam a falar ou aprender inglês. Percebo que não existe interesse do governo em querer que a população local fale inglês. Os canais abertos de televisão não ajudam nesse sentido e só passam programas em Cantonês, diferente da Tailândia e Filipinas, onde o povo local tem incentivo pra falar inglês e o canal BBC é aberto ao público.

Vemos que existe uma forma diferente de tratar o estrangeiro. Talvez por competição, pois o estrangeiro vem para Hong Kong para trabalhar em uma vaga que certamente terá benefícios que o próprio local não teria (o povo de Hong Kong chama o estrangeiro de fantasma branco). Muitas vezes essa vaga de emprego não é oferecida para o chinês. Isso é percebido no mercado financeiro. Até para fazer compras o preço para o estrangeiro é outro. Vejo que Hong Kong já perdeu os costumes britânicos e esta cada vez mais como um território chinês.

E aí, gostaram dos depoimentos dos brazucas? Hong Kong é um lugar muito complexo. Muito! Esses testemunhos são apenas alguns pontos de vista e eu aposto que há muitos outros!

Muito obrigado Erick, Fernando, Pedro e Juliana! Obrigado por me ajudarem a revelar um pouco dessa confusão organizada que é Hong Kong. Toda sorte pra vocês!

Pra ver mais brazucas dando seus depoimentos sobre Hong Kong, vou colocar aqui embaixo dois episódios do Programa "O mundo segundo os Brasileiros"  - um de 2011 e outro de 2014. Vale a pena conferir.

 


Um abraço e até o próximo pedaço do Sanduiche Chinês.

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