Muito debate e polêmica ao redor do assunto Copa do Mundo no Brasil, né? Nós já ouvimos, entramos na discussão e alguns de nós já estão cansados dessa bateção na mesma tecla. De Ronaldinho e Pelé falando como especialistas em políticas públicas à bumbum em forma de coração em camiseta, o povo já não aguenta mais! Começa logo essa copa e ganha a taça do mundo, para todo mundo vibrar, sair nas ruas, esfregar na cara do mundo e move on para os próximos escândalos.

Mas, a 70 dias dos jogos, o assunto é o Guaraná e o Neymar.

O cara deve ter ganhado uma grana para fazer um comercial da marca, no qual gringos são instruídos por moradores locais, incluindo o Neymar, a pedir Guaraná em português. A instrução inclui apelidos bem brasileiros: serra pelada (careca), água de salsicha (não serve para nada), filhote de cruz-credo (muito feio). Um absurdo!!! Um horror de xingamento!!! Pisaram na bola!!!

O povo desesperou. Não sei dizer, porém, quem desesperou mais – os brasileiros residentes no Brasil ou os de fora. Não sei se foi de vergonha ou se foi de medo que os gringos não venham mais, já que pela primeira vez na história foram ridicularizados. Até pareceu que, pela primeira vez, a gente começou a pensar que não é muito bacana fazer turista de bobo.

Fábio Chiorino, da revista Carta Capital, publicou: “A propaganda do Guaraná Antártica expõe uma característica deplorável do brasileiro: de zombar ou tentar levar vantagem em relação a um gringo que chega até o país. Explorar essa “malandragem”, muitas vezes enxergada como um traço cultural, será sempre um retrocesso. Ainda mais quando a mensagem é transmitida por uma marca extremamente popular e que é a patrocinadora oficial da seleção brasileira. Para piorar, fazemos isso às vésperas de receber milhares de estrangeiros para a Copa do Mundo”.

Jura?

Daí os nossos amados deputados entraram na jogada, pedindo que o comercial fosse retirado do ar. Motivo: “bullying” com estrangeiros.

Bullying? Jura mesmo?

Vamos colocar as coisas em perspectiva por um segundo. Vamos pensar primeiro se realmente sabemos o que é bullying, porque me vem à mente um monte de exemplos de bullying de verdade, feitos sempre contra o indefeso. Vem à mente o bullying que se faz com o povo brasileiro, como o da favela, que foi expulso para deixar a cidade bonita; ou contra os manifestantes na rua que, desarmados, não, armados de câmeras e cartazes, foram vítimas de violência fatal; só para citar alguns exemplos. Mas, a preocupação é que, o turista gringo, que diga-se de passagem, vai pagar milhares de dólares num ingresso de jogo, fique chateado, ofendido de ser chamado de "serra pelada".

Gente, cadê os valores?

Como disse uma usuária do Facebook em resposta ao post da Revista Veja sobre os deputados: “bullying com os estrangeiros (e eu acrescento, contra o povo brasileiro também) são os preços exorbitantes, a bandidagem, violência, falta de transporte público de qualidade, trânsito caótico… A propaganda me parece só uma brincadeira entre amigos”.

A mim também parece só uma brincadeira.

Talvez essa “falta de humor” seja decorrente do fato de que nós brasileiros sejamos vítimas deste terrível acontecimento contra o país. Teremos que receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas, uma atrás da outra, gastar dinheiro público, mas também enriquecer empresas à beça e ainda, ter milhares e milhares de turistas gastando no Brasil, aprendendo a nossa língua lá fora, colocando o Brasil no mapa!!! Que horror!!! Que catástrofe essa, não?

Puxando a brasa para a minha sardinha, acho essa propaganda uma excelente oportunidade para que enalteçamos a importância de se falar outras línguas, principalmente a língua de onde viemos, nossa língua de herança. Imagina que bonito ver um gringo pedindo Guaraná e mesmo com sotaque e preposição fora do lugar, voltar para a areia com a bebida gelada? E que bonito também, no caso do turista não saber nem dizer obrigado, que o vendedor saiba pelo menos entender I want a Guaraná, please. Não seria?

Só para finalizar, a gente (os brasileiros) parece sempre se achar o pior dos piores. Convido-o a conhecer mais sobre como turistas, ou pior, como residentes que não dominam a língua local são tratados ao redor do mundo. De novo, me vem à mente muitos exemplos, especificamente, um caso horrendo que aconteceu aqui em NY: uma jovem senhora, falante de espanhol, foi à polícia 3 vezes denunciar o abuso cometido por seu marido. Após algumas semanas foi morta, juntamente com suas duas filhas pequenas, de 2 e 4 anos, pelo marido. As denúncias nunca foram respondidas, por quê? De acordo com o perito, ninguém no departamento falava espanhol.

Colocou as coisas em perspectiva agora?

ps: Espero que vocês leitores entendam a minha ironia através das "!!!" 

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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