Mesmo dentro de uma casa vê-se multiculturalismo. Na minha, a história era que um caboclo de Santarém, Pará, descendente dos confederados americanos casou-se com uma moça de Belém do Pará, descendente de espanhóis, que crescera em São Paulo. Dessa mistura saíram três moças de cabelo liso como de índios que falam poRta e égua quando a coisa engrossa.

Crescemos sabendo muito de cultura paulista e de cultura paraense também. Comendo x-burgueR e tambaqui assado, açaí, cupuaçu e tapioca. Nosso pai passava horas contando também sobre a herança americana, dos grandes confederados, que apesar de defenderem ideias já há tempos derrubadas, eram dignos de admiração por sua coragem e tradição familiar.

Eu sinceramente pouco me importava com tal herança. O que queria era aprender francês e ir um dia morar na Europa. Mas os ventos do Hemisfério Sul acabaram me trazendo à terra do Tio Sam, precisamente à NY.

Aqui encontrei gente do mundo inteiro e em idas e vindas pertenci à uma família libanesa, que além de impressionar-se com o meu conhecimento de comida árabe acabou descobrindo que mais de 50% dos políticos brasileiros são de origem árabe.

Por fim, casei-me com um americano descendente de alemão apaixonado pelo Brasil e assim, eu viajo aos quatro cantos do mundo quase todo dia.
Interessante o bastante, a nossa identidade cultural vai mais além do sotaque, do passaporte que levamos ou da língua que adotamos. Tem sempre a ver com o universo de onde viemos e o universo para onde vamos.

Depois de alguns anos morando nos EUA, fui diagnosticada com uma grande intolerância alimentar. Tipo assim, sou alérgica à glúten, soja, ovos, leite e muitas outras coisas, incluindo o adorado feijão preto. Segundo o especialista, provavelmente nasci assim, mas a alimentação bem mais saudável no Brasil, e caracteristicamente menos rica em glúten, segurou as pontas. Ao chegar aqui, a coisa degringolou.

A caminhada “gluten and other things free” não é nada fácil. É necessário mudar radicalmente, ou voltar às raízes – a querida, amada e idolatrada tapioca é um recurso.
Mas e tem tapioca para vender na esquina em NY?

Claro que não. A gente espera o parente corajoso que não tenha medo que ela se pareça cocaína e traga na mala. Daí, aquela textura que dá liga, crocante e o gostinho da manteiga te fazem tão feliz que você acaba escrevendo uma ode à tapioca:

Ó tapioca, branca como a mandioca
Fostes trazida pelos primeiros brasileiros
Pelos sábios guardadores de nossa terra
Que dela nos deram rico canteiro

És para mim, fonte de alegria,
de saceio e de memória
Alimenta-me de manhã, à tarde e à noite
E meu coração se enche de glória.

Lágrimas, jamais
Ó tapioca
Lágrimas, jamais
Ó tapioca

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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