Todo mundo que mora abroad passa por fases. Falamos sobre isso no post “Aculturação

No caso de quem mora nos EUA, tem fase só de inglês, das descobertas do idioma e de achar que falar a língua americana é cool. Fase de total cansaço e alienização, de vez em quando das duas línguas – português e inglês. Tem também fase de ser proficiente nas duas línguas. Tem gente que move on de uma fase para a outra, outros get stuck in the phase de só falar inglês e esquecer, confundir e se atrapalhar com português. Hã? Ahãm.

Gente, fala sério.

Ninguém esquece sua língua materna, a não ser por dificuldades cognitivas derivadas de um sério acidente de sequelas cerebrais com uma ressalva gigante nessa definição. O indivíduo pode também veementemente decidir adotar outra língua que não a sua materna. Daí, a questão é outra e vamos conversar mais a respeito em uma próxima coluna.

Outros decidem adotar outra língua como sua primeira língua, porque é cool ou chique.

Cool posso dizer que não é. Descontando os americanismos adotados no Brasil (que daí até eu prefiro ouvir facibuki e homipaji), misturar português e inglês, ou português e qualquer que seja a língua local, é cafona, ou para os íntimos, tacky. Uma coisa é se utilizar de uma nomenclatura que já faz sentido em inglês. Misturar é outra história.

Chique? Nem pensar. Chique é ser bilíngue, com cada macaco no seu galho, falando uma língua de cada vez, corretamente, para o ouvinte/falante certo, prestando atenção nos acentos e reduzindo ao máximo o sotaque para se fazer entendido.

Mas tem gente (diga se passagem, gente deslumbrada) que acha legal dizer para o filho, pega o juicy na sua backpacky. Hã? Ahãm. Mais ridículo não dá.

Um fenômeno que muitas vezes é errôneamente atribuído como explicação a essa mistura é o code switching, e mesmo em sua definição há controvérsias. A doutora em Linguística Luciana Lessa comenta que:

“Para indivíduos bilíngues esse fenômeno é extremamente comum. Adultos que aprendem uma segunda língua, após a infância, muitas vezes alternam o uso de duas línguas em momentos em que uma palavra ou expressão da segunda língua pode melhor expressar a ideia que se pretende passar. Isso acontece porque, embora seja possível traduzir o que se diz em uma língua para outra, nunca duas línguas serão uma o espelho da outra em termos de vocabulário ou de sentidos sociais e/ou culturais atrelados a palavras ou expressões.”

Note como a especialista denota a diferenciação contextual que uma palavra tem, muitas vezes dependente da língua de origem da mesma. Não que o juice e a backpack façam mais sentido em inglês do que em português, mas isso pode ocorrer com outras palavras como figure out, draft, review e outras mais. Essa mistura acaba virando um dialeto entre as comunidades expatriadas que, na minha opinião, podem não ser tão positivas.

A bem da verdade é que pais que não planejam criar um ambiente realmente bilíngue para seus filhos, ou que não têm a seu disposal muitos resources, acabam se apoiando somente nas interações linguísticas locais. Daí, claro, a criança vai à escola americana, ouve "juicee" "backpack", e tem de ouvir o mesmo em casa, no parquinho ou de férias no Brasil. Faz sentido? Nenhum.

Luciana destaca que o code switching “não corresponde a ausência de regras no uso de duas línguas, ou seja, não é uma bagunça que cada pessoa fala como bem entende. Pessoas bilíngues fazem isso a depender de alguns contextos”, por exemplo, com quem estão conversando, a situação da conversação, e tal troca não ocorre aleatoriamente. O local onde você vive também determina a organização desta troca.

A doutora em linguística ainda lembra que

“As crianças em processo de aquisição de linguagem possuem uma grande abertura e flexibilidade para lidar com aspectos que parecem muito complexos e confusos na visão de um bilíngue adolescente ou adulto (indivíduo que aprendeu uma segunda língua na idade adolescente ou adulta). Para as crianças bilíngues, a alternância entre as línguas e o sotaque dos pais em comparação com falantes nativos do país em que se vive são informações que vão sendo incorporadas como naturais e elas parecem passar por isso sem qualquer problema.”

E tem mais. Criança é o ser mais sincero que existe. A mãe, ou pai, começa a misturar línguas e a criança (aquela que já é conectada ao mundo o bastante para perceber que é muito mais legal ser bilíngue) alerta e dá bronca. Ela percebe, inclusive, que a mãe, ou pai, tem sotaque na língua local e que faria muito mais sentido para a criança ouvir o bom e velho português vindo da mamãe ou do papai.

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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