Já falamos que ao mudar-se para fora do Brasil ganha-se muito, mas perde-se muito também. Dependendo da situação, da idade e das circunstâncias emocionais, experimentamos diferentes sensações em relação a nossa identidade cultural original e ao desejo de contato e participação com a cultura na qual estamos agora inseridos, como discutimos aqui. Cada indivíduo tem uma experiência única e cheia de particularidade, mas invariavelmente o sentimento que se tem em relação ao seu interior, a sua própria experiência identitária, é marcante. 

No ano passado comecei uma série de posts nos quais discuti os encantamentos que o Brasil tem provocado em seus próprios filhos e em estrangeiros. Hoje concluo esta série falando de mim mesma, lá de dentro, do fundo do coração. 

O nome desta coluna é Português Nosso de Cada Dia, língua essa que representa, expressa e comunica diversas, se não todas, as esferas da consciência de seus falantes. Eu sou falante desta língua, ela me construiu e Fernando Pessoa não poderia ter acertado mais em cheio: ela é a minha pátria. Não importa há quanto tempo, nem para quão longe eu for, essa marca é intrínseca mesmo - mais ainda, é materna. E ao dizer materna, reúno nesta palavra tudo aquilo que me foi dado enquanto crescia, enquanto me formava e por quem me viu nesse período, quem realmente me conhece desde pequena. 

Acabo de passar uma temporada no Brasil, a qual comecei em pedaços. Dia a dia, encontro a encontro, fui percebendo em quantos pedaços havia sido quebrada e, assim, fui capaz de ver como ia sendo colada, remontada. Fui me dando conta de como faz falta acordar pelo barulho de pratos batendo na cozinha. Tem alguém acordado com você, alguém preparando um café da manhã. E então você percebe como fazia falta o gosto e o cheiro daquele café forte, da tapioca macia, da manga e da banana realmente saborosas. 

Percebe como ouvir palavras 90% paroxítonas acerta o ritmo interior, além de reparar o estoque de vitamina D que só é sintetizada a partir da luz do sol. Não é impressionante? Indivíduos que partem de países ensolarados são os que mais tem deficiência de vitamina D em países com inverno rigoroso. Por que? Porque seus corpos cresceram mimados, extraindo esse complemento durante todas as estações. Quer argumento mais forte para defender que essa volta, literal ou reflexiva, é altamente necessária? 

O encontro diário com o que faz você é nutritivo: os sons, os gostos, as cores, o calor, a paisagem, as pessoas. Essas pessoas que te olham e já te sacam, que te fazem companhia e às vezes sem necessariamente dizer o que você esperava ouvir, te dizem. E de repente, você se sente forte de novo para fazer o que sempre fez, mas quem sabe esqueceu como - especialmente, acreditar em você mesmo. 

A minha situação pode ser muito diferente da sua, a minha experiência lá e cá também, mas posso garantir-te uma coisa: a gente é movido pelo que nos gera, e nossa língua e cultura maternas são esse começo. Se a gente vai parafrasear a língua local baseado na língua portuguesa e cometer "erros" simpáticos, se a gente vai se arrepiar quando ouvir o hino nacional, se a gente vai mover montanhas (literalmente) para que as nossas crianças e os filhos dos outros também tenham contato com a língua e cultura do Brasil, vai depender de você. 

Mas, onde tudo começa? Lá trás... lá em casa, no Brasil, onde tem brigadeiro na festa de aniversário, pão de queijo no lanche da escola e chuvas de janeiro a março que todo ano inundam as cidades. Então sim... quem vem primeiro é o ovo, depois a galinha. 

Esse texto é dedicado ao meus velhos e novos amigos no Brasil que, sabendo ou não, colocaram as pecinhas do meu coração juntas de novo e me fizeram voltar brilhando. A vocês, muito obrigada. 

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

Comentários  

# Mariia Amelia Carnei 22-03-2015 22:21
Parabens Felicia, paraben para sua mae mestra na educacao e ao seu pai que foi tambem o provedor.
Assisti suas entrevistas, inclusive com a Fortuna e outro educador, nao lembro o nome , e notei o seu desenvolvimento daquela bebezinha que guardo a foto com a dedicatoria.
Desejo a voce o melhor, realizacoes e sucesso no seu trajeto.
Estamos aguardando a publicacao dos livros, avisa.
Beijo no seu coracao
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# Felicia Jennings-Win 30-03-2015 11:22
Muito obrigada, Lia. Delícia de comentário.
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