Nada comprova de forma mais eficiente a máxima “língua é cultura” do que voltar ao lar depois de anos. Matam-se as saudades de gostos, cheiros e sons e, de repente, dá-se conta de que muito do que é daqui só é bom aqui. Se visitar o Brasil faz tão bem para nós brasileiros, que dirá para aqueles que estão aprendendo a falar e admirar a língua portuguesa.

Okay, é verdade que nem tudo é perfeito no Brasil. Você pode até pensar “perfeição passa longe daqui”, mas o nosso país tem impressionado tanto expatriados como estrangeiros. Uma pesquisa realizada pela G1 revelou o encantamento de turistas que vieram à Copa sobre hábitos bem canarinhos. Leia algumas delas:

- Os brasileiros se encontram, bebem juntos e dividem a conta. No Canadá, cada um paga o que consome.
- Aqui os casais se beijam e demonstram afeto em público, o que não acontece no Canadá.
- As mulheres sempre usam jóias, maquiagem… Elas se arrumam muito.
- Fiquei impressionado de saber que os adultos são obrigados a votar. Nos Estados Unidos, temos taxas vergonhosamente baixas de comparecimento nas eleições.
- Quase todas as lojas daqui parcelam as compras em várias vezes sem juros. Gostei disso. Dá para pagar o mesmo preço dividindo até em dez meses.
- Ficamos surpresos de ver como tudo foi bem organizado. O ônibus para o estádio, as informações para o aeroporto, tudo funcionou muito bem.
- Vocês abraçam muito mais.

É claro que os entrevistados também se impressionaram com a falta de pontualidade, com a violência e com algumas obras inacabadas. Entretanto, o que chamou minha atenção é que eles souberam admirar o que havia de intrinsicamente brasileiro nos hábitos e nas atividades de seus anfitriões. E você, tem despertado essa noção em seus alunos?

Já fazia 3 anos que eu não visitava a terrinha e apesar de, confesso, me horrorizar com alguns “atrasos”, me impressionei com muitos avanços e com a falta que o jeito brasileiro de ser me faz. O jeito, não o jeitinho. E não fui só eu. Meu marido e um amigo gringo também se impressionaram com muitas coisas que não notaram, ou notaram diferente desta vez. Mais prédios, mais carros grandes, mais mulheres andando sozinhas na rua, mais celulares nas mãos da população. Observações como essas geraram discussões sobre a posição econômica que o Brasil vem galgando e as implicações positivas que os grandes campeonatos esportivos têm desenvolvido.

O serviço brasileiro é, sem dúvida, outra particularidade. Os dentistas são um grande exemplo de competência e cuidado a um preço muito melhor. Gente do mundo inteiro vem tratar os dentes no Brasil. Os garçons na padaria são muito atenciosos e trazem ainda uma iguaria que é realmente só nossa – pão com manteiga e um cafezinho no copo de pinga. E a feira? Quem não compraria um alimento saudável com aquela gritaria toda?

Comida saudável só aqui mesmo. As frutas, verduras e legumes dão mesmo gosto de comer e de aprender. A manga e a banana, por exemplo, têm cor por dentro e fora e um gosto muito mais denso. A alimentação é em geral certamente mais leve. Aqui temos muito mais chances de fazer boas escolhas, com muito mais sabor e uma discussão nesse tema fará muito mais sentido depois de se comer em uma mesa realmente brasileira. Uma visita à feira ou a um rodízio de pizza dará uma aula inesquecível.

E o calor humano dos amigos e familiares? A gente cresce com a presença e o apoio de quem realmente nos conhece e nos ama, o que, vez por outra, faz muita falta lá fora. A gente faz amizade, é verdade, mas essa cumplicidade do passado é uma verdadeira vitamina, especialmente para os professores e promotores culturais.

O que isso tudo me fez concluir? A imersão é realmente impressionantemente eficiente. Lá fora, incentivamos o português em casa e em aulas, criando diversas oportunidades culturais em contexto. Mas, vir ao Brasil para visitar a família, no caso dos falantes de herança ou dos cônjuges, ou simplesmente encarar uma aventura por essas bandas é imprescindível para os aprendizes de todas as especialidades da língua.

Esse mergulho no mundo dos brasileiros, que é definitivamente outro mundo, ilustra diversos conceitos, inclusive os linguísticos. Do acordar ao dormir, comendo, bebendo, falando, rindo, cantando, vendo e revendo, tem-se a chance de experimentar o que realmente significa falar o português do Brasil.

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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