Já faz alguns meses que me dedico a pensar muito sobre quais seriam as habilidades fundamentais nas quais devo me concentrar para que meus filhos e meus pequenos alunos de português como língua de herança iniciem sua jornada de desenvolvimento dessa língua. Cá dentro, comecei a refletir inicialmente sobre os propósitos, as razões, dessas crianças desenvolverem suas habilidades linguísticas. Enfim, para que queremos que nossos filhos e alunos se expressem, conversem, leiam e escrevam nessa língua?

Em minhas observações informais e na pesquisa realizada pela professora Cleménce Jouët-Pastré (2011), com alunos de PLH de universidades, observamos que, em sua maioria, famílias brasileiras estão inicialmente preocupadas com a manutenção de laços familiares. Podemos pensar que a razão inicial pela qual os responsáveis buscam o desenvolvimento da LH de seus filhos é, primeiramente, para que eles sejam capazes de se comunicarem com a família distante. Em segundo lugar, existe o desejo de que essas crianças desenvolvam habilidades de ler e escrever para que se tornem bilíngues mais balanceados e para que tenham acesso a uma herança cultural letrada. Há também o desejo de que os pequenos iniciem o aprendizado de se expressarem na LH em situações formais tanto na modalidade oral quanto na escrita para que, futuramente, tenham vantagens profissionais sobre esse conhecimento.

Fico pensando, então, mas por onde começar? O que devo incentivar e exigir de  meus filhos primeiro? Qual deve ser o foco inicial de minhas aulas? A linguagem verbal, que inclui a linguagem oral e a escrita, são os instrumentos básicos de expressão de ideias, sentimentos e imaginação. A aquisição da linguagem oral depende das possibilidades das crianças terem acesso e participarem cotidianamente de situações comunicativas diversas como conversar, ouvir histórias, narrar, contar um fato, brincar com palavras, refletir e expressar seus próprios pontos de vista, observar e diferenciar conceitos. Aí é que percebemos o quanto o falante de herança se diferencia de um falante nativo, pois aquele tem um acesso restrito a essas situações comunicativas que lhe ensinariam e lhe exigiriam expressão, enquanto o nativo está imerso nessas situações em casa, na rua, na escola, enfim, o tempo todo.

Tonar nossos filhos e alunos capazes de se expressarem plenamente na linguagem oral e escrita é um caminho longo e deve ser planejado e trabalho continuamente por pais e professores. Mas, por onde começar? Proponho que, inicialmente, os aprendizes de herança desenvolvam competências narrativas e descritivas orais e escritas. Mas, por quê?

Bem, incialmente, para poderem se comunicar com os pais e com a família distante é preciso que essas crianças sejam capazes de descrever e narrar seu cotidiano, a rotina escolar, os eventos de fins de semana, etc. Na língua materna a experiência com esse tipo de texto acontece espontaneamente, como por exemplo nas conversas com a família e com amigos. Além das situações espontâneas de comunicação, uma criança que convive com a sociedade de sua língua materna tem acesso ao mundo letrado das narrativas até mesmo antes de saber ler porque ouve histórias, poemas e cantigas que utilizam formas de composição descritivas e narrativas nessa língua.

Para os falantes de herança, como o acesso à língua e à participação nessas situações comunicativas é limitado, esse processo precisa ser conscientemente trabalhado por pais e professores, uma vez que as situações de acesso espontâneo estão muito reduzidas.

Acredito ser importante que a formação inicial dos aprendizes no contexto específico das línguas de herança deva dar, inicialmente, ferramentas para que eles narrem seu cotidiano para alguém. Isto é, nossos primeiros esforços em casa e nas aulas de LH seria o de tornar a criança capaz de descrever e narrar sua história, sua própria experiência de vida para seus pais, avós, tios e primos. Esse trabalho primordialmente oral deve ser enriquecido por livros de literatura infantil e pelo trabalho com a escrita.

As narrativas literárias que encantam as crianças não só ampliam o vocabulário, mas também oferecem um modo de contar histórias. Além de ouvir ou ler, é importante que as crianças recontem essas narrativas, elas precisam ser capazes de reproduzir, oralmente ou por escrito, uma história contada ou lida por alguém. Ao ler e ter a necessidade de reproduzir a criança está ampliando seu domínio sobre as estruturas

da linguagem tanto oral como escrita. Por isso, convido pais e professores: vamos contar e deixar que contem...

Texto escrito originalmente para a plataforma Brasileirinhos

Referência:

Jouët-Pastré, C. (2011). Mapping the world of the heritage language learners of

Portuguese: Results from a national survey at the college level. Portuguese Language Journal. 5, Fall, 2011. Retrieved on September 03, 2014, from http://www.ensinoportugues.org/current-articles/

Ivian Destro Boruchowski
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Cursou Letras e Pedagogia na Universidade de São Paulo, trabalhou como professora de Literatura, autora de materiais didáticos e coordenadora pedagógica em São Paulo. Morando nos Estados Unidos, foi secretária da American Organization of Teachers of Portuguese (AOTP), para quem efetuou trabalho voluntário e dirigiu uma coluna quinzenal sobre a Língua Portuguesa (coluna Nosso Idioma, no jornal Gazeta Brazilian News). Atualmente, é mestranda em Curriculum and Instruction na Florida International University (FIU), cujo objeto de pesquisa é o currículo de línguas de herança.

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