O trabalho com Línguas de Herança (LH) visa à ampliação da capacidade de expressão dos aprendizes que, geralmente, está delimitada ao registro informal oral da língua e circunscrita ao vocabulário do ambiente familiar. Por isso, além de ter por objetivo o desenvolvimento da modalidade falada da língua para registros formais e a ampliação do vocabulário para diferentes domínios linguísticos, proponho que as escolas comunitárias de LH e outras iniciativas para a manutenção e o desenvolvimento de LH busquem também o desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita desses alunos.

Por que expandir a manipulação da língua da modalidade oral para a modalidade escrita? Primeiro, para que o aluno participe mais amplamente de uma herança linguístico-cultural; em segundo, para um desenvolvimento mais amplo da capacidade de compreender e produzir textos nesta língua; em terceiro, para o desenvolvimento de um pensamento mais lógico-abstrato na língua-cultura.

Como então podemos entender os conceitos de alfabetização e de letramento e como podemos situá-los no contexto do ensino de línguas de herança? Na língua portuguesa é comum distinguir dois processos interdependentes do aprendizado da leitura e escrita, a alfabetização, que pode ser entendida como o processo de instrução formal de decodificação das letras, das sílabas, das palavras na página, e o letramento, que é o aprendizado da manipulação (na leitura e na escrita) dos textos em seus contextos sociais. Vejamos como Magda Soares conclui sua discussão sobre esses dois processos:

Em síntese, o que se propõe é, em primeiro lugar, a necessidade de reconhecimento da especificidade da alfabetização, entendida como processo de aquisição e apropriação do sistema da escrita, alfabético e ortográfico; em segundo lugar, e como decorrência, a importância de que a alfabetização se desenvolva num contexto de letramento – entendido este, no que se refere à etapa inicial da aprendizagem da escrita, como a participação em eventos variados de leitura e de escrita, e o consequente desenvolvimento de habilidades de uso da leitura e da escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita, e de atitudes positivas em relação a essas práticas; em terceiro lugar, o reconhecimento de que tanto a alfabetização quanto o letramento têm diferentes dimensões, ou facetas, a natureza de cada uma delas demanda uma metodologia diferente, de modo que a aprendizagem inicial da língua escrita exige múltiplas metodologias, algumas caracterizadas por ensino direto, explícito e sistemático – particularmente a alfabetização, em suas diferentes facetas – outras caracterizadas por ensino incidental, indireto e subordinado a possibilidades e motivações das crianças. (SOARES, 2004, p.16)

Na educação, dissociar alfabetização e letramento mostra-se um equívoco, porque o aprendizado da leitura e da escrita deve ser baseado nesses dois processos, o de decodificação e codificação, como também o de leitura e escrita contextualizadas como atividades sociais.

O que isso quer dizer? Quando apenas focamos nas aulas de LH em atividades de decodificação ou codificação dos fonemas e letras, não estamos ensinando o aprendiz de LH a se comunicar de fato com alguém por algum propósito. No entanto, por outro lado, é preciso ensinar o processo de correspondência entre fonema e letra para que se possa ler e participar das atividades sociais de leitura e escrita. Daí ser impossível dissociar a alfabetização do letramento; esses processos são interdependentes.

Quais as implicações de trabalhar a alfabetização e o letramento nas aulas de LH? Primeiro, ampliar o acesso a uma herança linguístico-cultural de textos que consequentemente serão outra maneira de criar elos de pertencimento para o aprendiz. Segundo, fazer desses alunos sujeitos que produzam textos e que participem de um repertório linguístico-cultural escrito, o que os tornará muito mais preparados e efetivos em diferentes situações comunicativas.

O objetivo de nossas aulas é fazer desses aprendizes sujeitos que produzam textos orais e escritos, que leiam, compreendam e construam habilidades para essas duas modalidades de textos para que sejam efetivos em situações comunicativas diversas. Os aprendizes precisam entender que a língua existe na função de comunicar, expressar algo para alguém, de realizar e organizar nossos desejos, pensamentos e ações para o outro e para nós mesmos. Isso só acontecerá se as aulas de LH propuserem atividades para além do desenvolvimento das habilidades de decodificação de fonemas e letras, no entanto essas habilidades não podem ser esquecidas ou não trabalhadas.

SOARES, M. (2004). Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, n. 25, jan.-abr. Acesso em: 30 mar. 2015). Disponível em:  <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf>.

Ivian Destro Boruchowski
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Cursou Letras e Pedagogia na Universidade de São Paulo, trabalhou como professora de Literatura, autora de materiais didáticos e coordenadora pedagógica em São Paulo. Morando nos Estados Unidos, foi secretária da American Organization of Teachers of Portuguese (AOTP), para quem efetuou trabalho voluntário e dirigiu uma coluna quinzenal sobre a Língua Portuguesa (coluna Nosso Idioma, no jornal Gazeta Brazilian News). Atualmente, é mestranda em Curriculum and Instruction na Florida International University (FIU), cujo objeto de pesquisa é o currículo de línguas de herança.

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