Em um artigo anterior, instiguei uma reflexão inicial sobre quais expectativas de aprendizado estabelecer em relação às habilidades de fala, escuta, leitura e escrita para aprendizes de línguas de herança. Propus que essas expectativas estejam relacionadas aos contextos sociais para os quais se deseja que o aprendiz tenha domínio linguístico. Por exemplo, comentei que se a preocupação das famílias e escolas é unicamente manter os laços com os parentes distantes, as habilidades de ler e escrever podem ser direcionadas ao aprendizado da escrita em contextos informais como bilhetes, cartas e e-mails, por exemplo.

Agora, proponho um segundo passo para que professores e escolas de língua de herança desenvolvam seu currículo. Depois de estabelecidas as expectativas gerais de aprendizagem, é hora de se discutirem as concepções filosóficas e pedagógicas que professores, coordenadores e comunidade valorizam. Esta discussão deve tratar de conceitos fundamentais e ligados ao contexto do ensino de línguas de herança, como por exemplo: O que entender por aprender e ensinar? O que se entende por língua, alfabetização, letramento e cultura?

A importância de discutir esses princípios está em criar diretrizes para que os professores reflitam e tomem um posicionamento sobre como se relacionar com o conhecimento, com os aprendizes, sobre como estabelecer a dinâmica da aula e sobre que produtos esperar dela.

Por meio da reflexão e discussão, os professores decidem se vão se posicionar como transmissores do conhecimento que preparam exercícios e folhas a serem preenchidas pelos alunos com respostas predeterminadas, ou como mediadores de discussões que visam à construção de um produto ao final. Assim, os envolvidos podem valorizar uma concepção tradicional ou dialógica do conhecimento. Nesse último caso, os professores posicionam-se como aqueles que trazem objetos culturais a serem discutidos, mas também necessitam de preparação e habilidade para se colocarem como mediadores para que os alunos produzam o que foi estabelecido.

Na educação de línguas de herança, um conceito fundamental a ser discutido nesta fase do desenvolvimento do currículo é o entendimento que a comunidade, os professores e coordenadores têm sobre o que é língua. Em minhas pesquisas, notei que geralmente as pessoas relacionam língua e o ensino de uma língua a um único de tipo de gramática, a normativa. Isso se explica porque as pessoas pensam o ensino de língua da forma como vivenciaram seu aprendizado há 20, 30 ou 40 anos em suas escolas por meio de exercícios descontextualizados de repetição de estruturas gramaticais.

Mas o que é uma língua de herança para seu aprendiz? É uma forma de se relacionar com sua família, de estabelecer pertencimento com uma cultura, é o elo e o meio para a criação de uma identidade, como também uma forma de se expressar e de se relacionar com o outro e consigo mesmo. Nesse contexto, acredito que esse aprendiz será beneficiado por um aprendizado que se valha da exposição contextualizada de textos ricos em estruturadas gramaticais complexas e de um vocabulário que amplie seu repertório, geralmente restrito ao domínio linguístico do ambiente familiar e a estruturas gramaticais simples e informais da oralidade. Além de estar em contato com esses textos ricos, o aprendiz de língua de herança deve produzir textos, orais e escritos, em contextos formais utilizando e experimentando esse novo domínio linguístico. Exercícios específicos sobre estruturas gramaticais podem ser utilizados individualmente e pontualmente para a sistematização de certas estruturas que se mostram mais difíceis para cada aluno.

Outro conceito fundamental relacionado à educação em línguas de herança é o que se entende por cultura. Muitas vezes, comunidades, professores, coordenadores e diretores entendem cultura como a promoção de eventos em datas comemorativas. No entanto, a ideia de cultura pode ser ampliada para muito além de promover festas e dar a conhecer comidas típicas, heróis e festas nacionais.

A ideia central aqui é notarmos como nossas concepções sobre ensino-aprendizagem, sobre língua e cultura, entre outros conceitos fundamentais, dão o tom de nosso trabalho. Proponho que o desenvolvimento de um currículo de língua de herança passe pela reflexão, pela discussão e pelo posicionamento sobre como nossas crenças refletem-se em nossas práticas.
 

Ivian Destro Boruchowski
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Cursou Letras e Pedagogia na Universidade de São Paulo, trabalhou como professora de Literatura, autora de materiais didáticos e coordenadora pedagógica em São Paulo. Morando nos Estados Unidos, foi secretária da American Organization of Teachers of Portuguese (AOTP), para quem efetuou trabalho voluntário e dirigiu uma coluna quinzenal sobre a Língua Portuguesa (coluna Nosso Idioma, no jornal Gazeta Brazilian News). Atualmente, é mestre em Curriculum and Instruction na Florida International University (FIU), cujo objeto de pesquisa é o currículo de línguas de herança.

Comentários  

# Juliana 15-09-2015 15:36
Excelentes textos Ivian!!!!
Parabéns!
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