Quando penso no ensino do português como língua de herança, minhas ideias se povoam de pessoas: nos pais, que se engajam no projeto de criarem filhos bilíngues, por vezes com a incompreensão e a falta de apoio da família, e nas crianças que colhem aqui e acolá peças isoladas de uma língua-cultura para darem sentido ao mosaico de sua identidade de herança. Esse esforço não ocorre simplesmente porque será bom, no futuro, ser bilíngue; esse esforço se dá porque essa língua representa uma ligação afetiva e cultural que se expressa no espaço da família e de uma pequena comunidade, quando há.

Nesse contexto, conheci professores que se dedicam a ajudar essas famílias a construírem esse mosaico de uma língua-cultura-identidade de herança. Alguns desses professores trabalham isoladamente e outros participam de escolas comunitárias espalhadas pelo mundo. Dedico-me a refletir sobre as escolhas curriculares desses professores de língua de herança (LH).

Entre outros aspectos, proponho a esses professores reflexão inicial: quais as expectativas de aprendizado que essas famílias mantêm em relação às habilidades de fala, escuta, leitura e escrita para seus filhos? Essas expectativas estão relacionadas a quais contextos de usos sociais?

Por exemplo, se a preocupação das famílias é unicamente manter os laços com os parentes distantes, as habilidades de ler e escrever podem ser direcionadas a contextos informais como bilhetes, cartas e e-mails, que utilizam um registro mais próximo da oralidade. No entanto, se houver o desejo de se prepararem os aprendizes para atuarem como bilíngues profissionalmente no futuro, haverá a necessidade de se explorarem diferentes registros linguísticos e habilidades, como, por exemplo, falar em público utilizando um registro formal e escrever textos de acordo com a gramática normativa.

Cabe aos professores, às escolas comunitárias e às famílias discutirem e acordarem sobre o caminho para que os aprendizes colham suas peças e construam seu mosaico ao longo de sua vida.

Ivian Destro Boruchowski
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Cursou Letras e Pedagogia na Universidade de São Paulo, trabalhou como professora de Literatura, autora de materiais didáticos e coordenadora pedagógica em São Paulo. Morando nos Estados Unidos, foi secretária da American Organization of Teachers of Portuguese (AOTP), para quem efetuou trabalho voluntário e dirigiu uma coluna quinzenal sobre a Língua Portuguesa (coluna Nosso Idioma, no jornal Gazeta Brazilian News). Atualmente, é mestranda em Curriculum and Instruction na Florida International University (FIU), cujo objeto de pesquisa é o currículo de línguas de herança.

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