Fico mais chocada do que ovo de pata toda vez que reflito em como ainda pode existir racismo no Brasil, um país onde a cultura e a representatividade afro-brasileira é tão presente.

É deprimente e contraditório – sério mesmo!

Ao falarmos em racismo, imediatamente pensamos nos negros. Embora outros grupos também sofram com racismo – atualmente, esse é o grupo mais atingido.

A origem do racismo se dá por diversos fatores, mas é certo que o meio inserido e a formação do indivíduo influenciam no pensamento e comportamento racista.

Esse processo de construção do preconceito racial com relação aos negros se dá desde  a escravidão, o que gerou - após a libertação dos negros em 1888, a exclusão social, onde foi ofertado aos negros – quando ofertado – empregos de submissão, em que o trabalho intelectual não era valorizado e sim o trabalho braçal.

As atividades escolares não eram acessíveis a esse grupo, o que gerou vulnerabilidade social, um exemplo disso é que os Quilombos foram substituídos por Comunidades.

Com isso, percebe-se como o racismo, da história e até hoje, em plena metade do século 21, faz vítimas.

Embora no Brasil haja uma forte mistura de raças, a incidência de racismo pode não ser tão evidente para alguns, mas ele não deixa de existir. Em alguns casos, ocorre de forma polida, em que nem é percebido pelas pessoas, como em forma de piadas, etc.c.

A verdade é que nenhum lugar está protegido do racismo. Outra evidência clara da exclusão racial é o cenário acadêmico e profissional. Nesse último, é nítida a diferença entre cargos de liderança ofertados aos brancos e aos negros.

Após a libertação dos negros, não foi dada nenhuma condição para que os mesmos pudessem se inserir na sociedade, o resultado da exclusão social é, automaticamente, a marginalidade social - o racismo é consequência e a matriz desse descaso.

O racismo é mais do que a exclusão propriamente dita, é uma sub-inclusão que notamos no cotidiano. Há uma certa polidez ao lidar com o negro onde, após o período de 1800, ofertaram ao negro a extensão da senzala, a cozinha, os sub-empregos, sub-lugares, como uma de forma de alocá-lo socialmente, mas ainda assim, num patamar inferior ao do branco.

Observamos isso no cotidiano da elite, nos centros comerciais etc. Nesses lugares, os negros são alocados como faxineiros, vigilantes, serventes e cargos similares. Dificilmente o negro é contratado para um cargo de confiança, ou para lidar diretamente com o público.

Na televisão brasileira, os negros são submetidos a papéis de subordinação, como babá, empregada (o) doméstica (o), ou até como criminoso, marginal etc. É comum ouvirmos “Não sou racista, até contratei uma empregada negra”, como se essa afirmação legitimasse uma visão de igualdade racial do indivíduo.

Há dentre esses já citados, muitos outros comportamentos na sociedade, que tornam a cor da pele um determinante importante para o alocar de posições e o usufruir de oportunidades.

Diante dessa problemática, é natural e obrigatório que o Estado invista em políticas públicas e medidas reparadoras que, além de ofertar condições para remediar os danos causados durante anos de exclusão e atraso social aos negros, os insira na sociedade.

Logo abaixo tem um infográfico que pode ser uma ferramenta para ajudar as pessoas a entenderem o que é o racismo e como se deu. A partir dessa compreensão, é possível afirmar que sim -medidas reparadoras como cotas de inclusão nas universidades e concursos públicos não são uma forma de inferiorizar os negros, muito pelo contrário, representam apenas a conta que o estado tem de pagar por tantos danos causados a um grupo que foi excluído apenas pela cor da sua pele.

Como o melhor sempre fica para o final, temos aqui a entrevista com a Nilma Lino Gomes, Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República:

Maria Clara - O Racismo no Brasil ainda está muito enraizado, caso contrário, não seria necessária a criação de políticas públicas em prol da equidade de raças. Digo com relação às oportunidades, inserção social e tratamento cotidiano, por exemplo, as mulheres negras na metade do século XIX eram muito mais desrespeitadas do que os homens, uma vez que eram objetivadas como fonte de prazer sexual e submissão aos homens brancos. Isso mudou? Se não, como acredita que podemos transgredir essas barreiras?

Ministra - A superação do racismo continua sendo um desafio, não apenas para a Seppir ou para os governos - federal, estaduais e municipais -, mas para toda a sociedade brasileira. Sabemos que ainda há muito a ser feito, mas não podemos deixar de reconhecer os avanços registrados nos últimos anos, a começar pela própria criação da Seppir, em 2003, que permitiu a institucionalização do tema, estimulando a criação de organismos específicos e dos conselhos de igualdade racial em todo o país. Além disso, avançamos também na aprovação de leis voltadas para a garantia de direitos da população negra, como é o caso da Lei nº 10.639, de 2003, que estabelece o ensino da História e da cultura africana e afro-brasileira nos currículos oficiais; a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, de 2006; a aprovação da Lei n° 12.288, de 2010, que criou o Estatuto da Igualdade Racial, e da Lei n° 12.711, que estabeleceu, em 2012, o Sistema de Cotas nas Instituições Federais de Ensino Médio e Superior, por exemplo. Mas precisamos continuar somando esforços para que o racismo e as demais formas de preconceitos sejam efetivamente superadas. Para isso, a Seppir dialoga com as diversas áreas do governo federal, visando construir ações conjuntas para que possamos, a médio e longo prazo, corrigir as desigualdades historicamente acumuladas.

MC - Como têm sido o progresso da nossa sociedade com relação à forma como o negro no geral (homens e mulheres) é visto e tratado atualmente? Percebo, por exemplo, em telenovelas ainda a “submissão” do papel do negro com relação ao branco. Os negros ainda ocupam cargos em que o trabalho “braçal” é mais presente do que o intelectual, nas comunidades grande parte são negros, o personagem que é, por exemplo, criminoso (traficante, ladrão etc) é negro, o branco marginal é sempre elitizado (um empresário corrupto, etc), a empregada doméstica é, geralmente, negra, e os protagonistas em 95% dos casos são brancos, e quando são negros têm uma vida sofrida e ainda de classe média baixa. A elite nunca é negra em filmes ou novelas. Isso é reflexo da realidade ou é um padrão tão estabelecido que parece impossível transgredir?

Ministra - O Brasil é reconhecidamente um país de intensa diversidade cultural, no entanto, lamentavelmente convivemos, ao longo da história, com a desigualdade social, racial, e o preconceito que atinge não apenas os negros, mas a população LGBTT, as comunidades de matriz africana, que sofrem sobretudo com o preconceito religioso, os judeus, as mulheres e os ciganos, apenas para citar alguns exemplos. Mas o Brasil deu passos importantes para superação desse quadro e podemos citar, entre os avanços, a implementação das ações afirmativas, que têm o papel de corrigir essas distorções. Como exemplo dessas ações, temos o sistema de cotas nas universidades e no serviço público, que contribuem para colocar a população negra em um lugar de visibilidade social e política.

MC - A Militância em prol do Movimento Negro se faz presente em toda a História do Brasil. Sabemos que até 1888 essas organizações eram tidas como “clandestinas” por conta da ainda presente, escravidão, onde o negro era uma “propriedade privada”. Como a senhora vê a força do Movimento Negro atualmente? Tornou-se mais presente, tem mais voz ou ainda é marginalizado (pela sociedade) e ouvido apenas nos meios daqueles que militam?

Ministra - Todas as conquistas registradas até aqui são fruto da atuação dos movimentos sociais e, em especial, do movimento negro, que é um movimento plural e protagonista dessa luta histórica pela redução das desigualdades e garantia de direitos.

MC - A política de cotas raciais nas universidades se faz presente há 11 anos. O cenário de aceitação é bem dividido entre os que acreditam que as cotas são uma forma de reparar os danos sociais, acadêmicos e políticos direcionados aos negros ao longo de séculos e os que veem como uma forma de diminuir o negro, uma vez que, a cota caracteriza uma incapacidade – nesse caso – intelectual. A ministra poderia explicar o que são as cotas e por que foram criadas?

Ministra - O sistema de cotas raciais visa corrigir desigualdades históricas a partir de uma intervenção do Estado para a garantia de direitos. Assim como já aconteceu com as Universidades Federais – que desde 2012 destinam 20% das suas vagas a estudantes negros e provenientes de escolas públicas – o setor público será beneficiado pelos efeitos positivos da diversificação do seu quadro de servidores. Quanto maior a diversidade dos órgãos e empresas públicas maior será a sua capacidade de prestar serviços de excelência para o país.

MC - Em seu discurso de posse, a senhora disse “A Seppir tem um papel desafiador político e educacional, pois ela tem caráter pedagógico e precisa incidir de maneira educativa e estruturante na alteração dos impactos que atinge a esses por motivos diversos, dentre eles a orientação sexual. É preciso construir a nova gestão com o maior número de olhares sobre o novo desafio que se configura no combate ao racismo no Brasil” – como a senhora acredita que a Escola e os Educadores podem atuar para acabar com o preconceito e inserir socialmente esse público que é marginalizado como os negros, homossexuais, travestis, transexuais, mulheres, etc?

Ministra - Como a presidenta Dilma Rousseff disse, em seu discurso de posse, o novo lema do governo federal "Brasil, Pátria Educadora", indica que a educação será a grande prioridade do país nos próximos quatro anos. Portanto, esse lema reforça ainda mais o diálogo que a Seppir mantém com os movimentos sociais e as diversas áreas do governo no sentido de combater o preconceito racial e a discriminação e promover a igualdade, indispensáveis para que o Brasil seja efetivamente um país mais justo e mais solidário.

MC - Ministra, como foi a criação do projeto Humaniza Redes que contou a participação da Seppir no processo de criação e implantação? A senhora acredita que é também uma forma de educar a sociedade para o que é correto, ético e humano?

Ministra - O objetivo do projeto é garantir mais segurança e ajudar a reduzir os discursos de ódio, discriminação e preconceito nos ambientes virtuais. A iniciativa inclui a criação de uma ouvidoria online – um canal de denúncias de violações de direitos humanos, dentro do site Humaniza Redes, que oferecerá especial atenção aos casos de violação de direitos de crianças e adolescentes, principalmente de violência sexual – além de presença nas mídias sociais (twitter e facebook). As pessoas podem obter mais informações sobre o projeto no site Humaniza Redes

MC - Quais são as dificuldades que a Seppir encontra na sociedade no árduo processo de reparação de danos e inserção social dos negros na sociedade, através das políticas públicas de promoção da igualdade racial?

Ministra - A Seppir foi criada para realizar políticas de promoção da igualdade racial com enfoque no segmento negro, mas incorporando também outros segmentos étnico-raciais, como os ciganos, povos e comunidades tradicionais, por exemplo. Essa articulação por si só já é um desafio, pois o racismo e a discriminação racial incidem de forma diferenciada de acordo com o contexto, a história, a renda, a escolaridade, o gênero e a orientação sexual, mostrando as formas diferenciadas de o racismo expressar sua perversidade e subordinar as pessoas. Portanto, entender isso e transformar em uma política de Estado é, sem dúvida, um trabalho desafiador.

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E aí, gostaram? Mais do que curtir ou compartilhar, é importante que discussões construtivas sejam abertas dentro do espaço escolar e no meio familiar, é primordial que a educação seja plural e que seja semeado nas crianças e adolescentes a empatia, a importância de olhar o outro de maneira amigável e fraterna.

A erradicação do racismo, bem como de tantos outros preconceitos se dá a partir dessa amorosidade e compreensão de que as diferenças étnicas, religiosas ou sexuais não determinam inferioridade nem superioridade.
É importante não ensinar apenas cálculos e estimular habilidades literárias nos educandos – temos de ensinar o amor de uma maneira pura e abrangente, caso contrário, continuaremos criando uma sociedade doente que olha apenas para si.

E mês que vem é edição de aniversário da Nem rosa, nem azul - vai ter Ana Holanda, da Revista Vida Simples, e mais uma surpresa maravilhOUsa <3

 

Maria Clara Paes
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Poeta de primeira viagem, escrevo no caderno, nos rascunhos, pela vida afora e coração adentro. Agridoce – tem que ter paladar! Louca por música e pelo Batman. Ora princesa, outrora batgirl, goy, birl, girltogirl, mas quem se importa? O importante é lacrar! Sou da Paes, sou Maria Clara. Vivo de amor profundo, já que o amor é a única revolução verdadeira. Chega mais que aqui tem jogo!

 

 

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