Durante o mês de abril/2015, São Paulo recebeu na Tag Gallery a exposição It's Not Personal, It's Drag! do artista brasileiro radicado em Paris, Rafael Suriani.

Mídias como Globo, SBT, Veja etc foram conferir a exposição que movimentou São Paulo ~chora conservas~

Coincidentemente ou não, falamos sobre o movimento Drag como arte na publicação de março da Nem rosa, nem azul.

É bacana perceber que alguns movimentos artítiscos têm representado grupos socialmente oprimidos.

Toda essa movimentação só reforça a minha teoria de que a arte e a educação mudam o mundo, pois voltam à atenção para algo de uma maneira positiva, proporcionam reflexão e um novo olhar, com isso, é possível desmistificar o preconceito.

É óbvio que fui ver de pertinho a exposição e fiquei encantada! <3 

Na verdade não queria sair de lá, os painéis e pôsteres eram maravilhosos, rolou apresentação com performance Drag, show da banda Gomalakka e discotecagem.

Aliás, para quem pensa que LGBTT é bagunça, teve até criança na exposição.

Olhem as fotos – é muito amor!

E é claro que eu não ia perder a oportunidade de bater um papo com o Suriani, que além de mega talentoso, é super receptivo! Dessa vez vou fazer aquele esquema de perguntas e respostas, ok?

Maria Clara - Como surgiu essa inspiração de retratar Drags na sua arte?

Suriani - Em 2013 participei de um projeto da associação ACT-UP que reuniu, em Paris, artistas em prol das causas LGBTT. Nesse momento, projetos de leis que garantem à igualdade de direitos para casais do mesmo sexo estavam sendo tratados na esfera política. Houve nessa época, grandes manifestações nas ruas, organizadas por grupos conservadores, para impedir o avanço das leis, em nome dos valores tradicionais da “família”. Senti a necessidade de expressar a beleza da diferença, a aceitação e a liberdade de expressão, de forma alegre e positiva. Esses são justamente valores difundidos pela cultura Drag!

MC - Teve alguma barreira quando você começou a grafitar Drags? Por exemplo, alguém disse que não daria certo, que não seria aceito etc.?

S - Não diria que houve barreiras, pois a arte de rua é livre e independente. O street art proporciona ao artista um espaço de expressão, não depende à priori da aprovação de ninguém para acontecer. Algumas colagens são arrancadas logo após serem feitas na rua, o que mostra que o tema não agrada à todos. Mas isso faz parte do jogo, se me dou o direito de colar, as pessoas também temo direito de arrancar, a arte urbana é efêmera mesmo...

MC - Particularmente, ainda vejo que as Drags são marginalizadas por parte da sociedade, ainda noto olhares esquivos, apontamentos de cunho preconceituoso, embora seja bem menor do que é com travestis, claro. Qual é a sua opinião sobre isso? Por que acha que isso ocorre?

S - Infelizmente ainda existe muita homofobia. As questões ligadas ao gênero e à sexualidade ainda são tabu na nossa sociedade. Tudo o que questiona a moral e os valores estabelecidos incomoda. As Drags assumem personagens do sexo oposto, expondo publicamente sua homossexualidade. Elas expressam a feminilidade reprimida que existe em todos os homens (indiferentemente de suas orientações sexuais). Como essa transformação acontece na esfera da arte, acabam ficando mais protegidas da crítica popular. As travestis ou transexuais ainda sofrem mais preconceito por sua própria condição. A imagem delas reflete quem realmente são, e não uma personagem. Por isso a discriminação as acompanha no cotidiano. Ainda por cima, existe a associação com a prostituição que é um preconceito enorme que precisamos combater.

MC - Como você acredita que a arte e o acesso à cultura podem mudar esse olhar de preconceito no âmbito geral com relação às Drags, Mulheres, LGBTT etc.?

S - A arte, ao tratar um tema especifico lhe dá visibilidade e proporciona uma reflexão. Quanto mais a sociedade se deparar com imagens que “falam” desses temas, mais eles serão debatidos. A arte e a cultura aumentam o alcance do individuo à reflexão e à formulação de uma opinião crítica sobre o mundo.

MC - Houve diferença na receptividade, aceitação ou crítica entre seu trabalho com Drags no Brasil e na França?

S - A série das Drags está tendo muito mais repercussão no Brasil e nos Estados Unidos, pela razão de que essa cultura é mais forte nesses dois países do que na França. O Brasil é um pais festivo, São Paulo uma cidade que tem uma cena noturna vibrante. Tudo isso contribui pro sucesso da cultura Drag (e da recepção tão positiva do meu trabalho) por lá. Aqui em Paris muitas pessoas ainda acreditam que os personagens que tenho colado na rua são mulheres!

MC - Como você acredita que temas relacionados à diversidade devem ser abordados nas escolas para que sejam formados cidadãos livres de preconceitos e com uma postura mais amorosa frente à diversidade?

S - Acredito que estes temas devem ser tratados desde muito cedo, com crianças a partir de três anos de idade, por exemplo. Devem ser abordados como todos os outros temas, sem tabu ou preconceito. A diversidade deve ser reconhecida e o conceito deve integrar a percepção das crianças para que cresçam e se tornem adultos mais abertos.

MC - Você tem um contato muito próximo com o Brasil e com a França, o que falta para os brasileiros lidarem naturalmente e terem senso de equidade entre héteros e LGBTT´s, homens e mulheres, negros e brancos etc.?

S - O Brasil é um pais jovem e que foi construído num contexto de exploração e escravidão. Muitos povos vieram se instalar no território, sem vinculo cultural ou social. A diversidade racial é rica, houve muita miscigenação, mas não houve a construção de uma nação solida perante à qual todos se identificam como iguais. Sinto que falta o sentimento de fraternidade, mas não no sentido cristão. Fraternidade no sentido de perceber que o bem estar do outro está intimamente ligado ao seu próprio. Que existimos enquanto coletivo.



Galera, quero expressar aqui meu encantamento e respeito pela cultura Drag, além de dizer que vocês representam sim o universo feminino. Em um país machista como o Brasil, ter coragem de assumir a persona mulher que há em vocês é um ato de coragem e força! Quem me conhece sabe o encantamento e respeito que tenho pelas Drags. Parabéns! A

liás, parabéns para nós LGBTT´s – Drags ou não, que enfrentamos a sociedade e damos a cara tapa, pois acreditamos que “cada um pode com a força que tem, na beleza e na doçura de ser feliz”

Vai ter LGBTT, vai ter igualdade, vai ter respeito, vai ter amor, vai ter educação e vai ter Nem rosa, nem azul!

 

Maria Clara Paes
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Poeta de primeira viagem, escrevo no caderno, nos rascunhos, pela vida afora e coração adentro. Agridoce – tem que ter paladar! Louca por música e pelo Batman. Ora princesa, outrora batgirl, goy, birl, girltogirl, mas quem se importa? O importante é lacrar! Sou da Paes, sou Maria Clara. Vivo de amor profundo, já que o amor é a única revolução verdadeira. Chega mais que aqui tem jogo!

 

 

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