Aqui na Nem Rosa, Nem Azul, promessa é divida, mô bem! E como prometido, está no ar a entrevista com a maravilhOUsa Laerte Coutinho.

Laerte é uma cartunista e ilustradora, que faz sucesso há muitos anos com suas ilustrações ácidas, bem-humoradas, provocativas e mega inteligentes.

Sua arte é veiculada em jornais, e em livros didáticos que vão do Ensino Fundamental ao Superior. 

Ela também é referência para algumas frentes do Movimento Feminista, contudo, Laerte diz: “Acho bom deixar claro que não sou uma especialista em Feminismo - tenho dele uma compreensão vulgar, a que todo mundo tem. E assim o assumo, e sobre ele tenho opinião”.

Como foi pra você assumir sua orientação sexual e identidade com relação à vestimenta etc.? Questiono isso porque em uma sociedade preconceituosa – como a que ainda vivemos – o processo é lento, ainda mais quando decidimos assumir a transgeneridade. 

“Eu havia começado a vida sexual com homens, e a homossexualidade, naquela época e lugar, era algo socialmente bem mais problemático que hoje. Namoro entre pessoas do mesmo sexo era chamado de “caso” e não podia ser exposto em qualquer salão. Então, era mais ou menos evidente que eu estava bloqueando um sentimento e um desejo. 

Em um momento da vida, perto dos 50 anos, resolvi me aceitar, ainda que com grandes dificuldades internas. 

A transgeneridade foi bem depois. E me deu um trabalho diferente, porque até hoje é vista com olhos de estranhamento.

Comecei pela constatação da realização incrível que usar roupas tidas como femininas me proporcionava. A partir daí foi se tornando mais claro para mim o que se passava no campo da definição de identidade; mas não tive, na minha vida, algo tão evidente como o que contam a maior parte das pessoas trans com que convivo, como episódios e sentimentos claros na infância.

Quanto à aceitação social, acho que influiu bastante o fato de ser quem sou, conhecida como artista e tal. É como se eu portasse um salvo-conduto”.

Laerte participou da gravação do clipe Fiu Fiu, da banda Filarmônica de Pasárgada, que é um manifesto feminista, tanto da letra quanto na composição do clipe, uma vez que representa claramente a forma como as mulheres são vistas por grande parte da sociedade: um objeto de consumo, um corte de carne.

Perguntei como foi para ela participar, uma vez que a música foi composta em formato de funk, ritmo que não a agrada nem na melodia, nem na letra. Ela disse que nem chegou a escutar como a música soava, que foi uma experiência difícil porque ela não é atriz, mas gostou da vivência, e também foi bacana coabitar com Tom Zé.

Um dos trechos da música diz “Quando eu passo você olha, assobia e faz fiu fiu. Todo dia, toda hora. Vai pra puta que pariu”.

Esse trecho é uma forma de conscientizar, tanto as mulheres quando os homens, de que um "fiu fiu" se não é desejado é assédio sexual. E também, de tentar fazer com que as pessoas entendam que as mulheres têm o direito do "não" e do domínio sobre o próprio corpo.

Embora esse discurso seja de fácil assimilação, há uma resistência social em praticá-lo.

Perguntei porque ela acha que há esse obstáculo mesmo com tanta informação e campanhas como a Chega de Fiu Fiu do Think Olga, que atua na conscientização contra o assédio sexual em espaços públicos.

“Você me faz perguntas que são as mesmas que eu faço - por que é tão difícil mudar uma marca cultural arraigada como essa? 

A pergunta se auto responde, claro. É tão difícil porque se trata de algo arraigado. Uma tradição de opressão muito antiga e forte. Uma mudança necessária, mas que vai levar tempo e exigir paciência. 

A história de Beto Hernandez em Love & Rockets, a saga que se passa em Palomar, às vezes traz essa epígrafe: Palomar - onde os homens são homens e as mulheres têm que ter muito senso de humor”.

Sobre a barreira que as mulheres enfrentam no Movimento Feminista, ela diz:

“O Machismo não é o contrário do Feminismo.

Este é um movimento histórico, que vem transformando as sociedades humanas desde o quê? - desde o século 19, por diversos caminhos e sob muitas formas. O Machismo é um preconceito, não tem a ver com identidade. 

Como elaborou a Christina Montenegro, Homem ainda não existe, ainda não existe homem, no sentido em que existem identidades como mulher, negro, gay etc.

É este movimento, com participação necessária dos homens, que deve libertar a gente não só do Machismo como de todas as opressões de gênero - falo das que atingem a população transgênero também”.

Laerte disse também que a adesão de artistas ao Movimento Feminista não banaliza o Feminismo, pelo contrário, tira do gueto, do cantinho, dá visibilidade e, com isso, cresce.

Hoje, o movimento feminista se vê articulado em várias frentes militantes, por exemplo, as mulheres trans, as mulheres lésbicas etc. Você acredita que isso enfraquece o movimento, uma vez que fraciona, ou essas articulações são necessárias?

“Feminismo nunca foi uma escola de pensamento única - sua vitalidade convive com sua enorme diversidade. Acho chato quando percebo posições que se afirmam como mais autênticas que outras“.

Sobre o programa da prefeitura de SP que oferece incentivo financeiro para travestis estudarem, além de inaugurar albergues para o mesmo público, ela disse que acha ótimo.

“São pessoas que vivem sob grande pressão e que, muitas vezes, querem construir alternativas para suas vidas. Não é só incentivo financeiro que se faz necessário - são medidas de qualificação nas instituições de ensino, são promoções positivas no mercado de trabalho.”

Laerte, como você acredita que a educação/ escola pode ajudar no processo de extermínio do preconceito e ampliação da consciência social para a diversidade sexual, de gênero, racial etc? Qual seria a abordagem ideal para as escolas? 

“Acho que a escola é fundamental para esse avanço, que a sociedade precisa fazer de modo integrado. Família, comunidade, escola, trabalho, política, arte - tudo precisa estar acessível. Em todos os lugares existe demanda de processos de discussão, de reflexão, de ação. Governos podem e devem ajudar em todos esses lugares”.

 

E aí, curtiram? ;)

Galera, a intenção da Nem Rosa, Nem Azul não apenas trazer informações, mas também oferecer material para vocês abrirem discussões construtivas tanto nas escolas, como nas rodas de debate, ok?

O tema do mês que vem será Racismo e ações afirmativas.

Querem saber quem estará aqui? Não vou contar por motivos de: é mega segredo, mas adianto que vai ser ~babado~! 

 

Maria Clara Paes
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Poeta de primeira viagem, escrevo no caderno, nos rascunhos, pela vida afora e coração adentro. Agridoce – tem que ter paladar! Louca por música e pelo Batman. Ora princesa, outrora batgirl, goy, birl, girltogirl, mas quem se importa? O importante é lacrar! Sou da Paes, sou Maria Clara. Vivo de amor profundo, já que o amor é a única revolução verdadeira. Chega mais que aqui tem jogo!

 

 

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