O acesso à cultura funciona como uma lente que amplia a visão das pessoas. Acredito que a maioria de vocês já mudou um ponto de vista sobre algo após assistir a um filme ou uma peça teatral, ler um livro etc. Os conflitos construtivos que surgem em nós depois dessas experiências são ma-ra-vi-lho-sos!

Conheci o Guilherme Terreri, 24 anos, professor de idiomas e estudante universitário, que deu vida a “diva” Drag queen Rita von Hunty.

Rita participou do reality show Academia das Drags, programa inspirado no reality americano RuPaul´s Drag Race e bombou na internet conquistando milhares de fãs, inclusive pessoas que tinham preconceito com drag queen, travesti, transexual etc. Em pleno século XXI, a internet é a nossa maior aliada na busca de novas informações e transformações conceituais. E é exatamente isso que farei aqui - nada melhor que aproximar essa realidade à de vocês. Assim, deixemos de lado o preconceito criado por um “pré-conceito” e formemos um “pós-conceito”.  ;)

Confiram a entrevista concedida pelo Guilherme para a ~baphônica~ Nem rosa, nem azul:

Guilherme disse que asociedade é muito carente com relação a informações referentes às artes. “Ainda mais carente quando falamos de artes "marginais" como a Drag. A sociedade vê a Drag de forma míope, pouco embasada e preconceituosa. "No meio gay a figura tem mudado bastante. Hoje, posso afirmar: as Drags estão próximas de seu reconhecimento completo como artistas. Sou otimista, e um pouco míope também (risos). Essas iniciativas (RuPaul´s Drag Race e Academia das Drags) ajudam a desmistificar a Drag, tirando-a do gueto e normalizando a nossa arte.”

Quando e como nasceu a Rita e como os seus familiares e amigos reagiram?

Rita sempre existiu, mas ganhou forças para ser “encarnada” em 2013. Após alguns anos de pesquisa e maturação, me senti confortável para apresentá-la em uma festa de Carnaval. A maioria dos meus amigos reagiu bem, mas teve alguns que não entenderam e pensaram que eu era transgênero etc. Depois de um tempo e algumas conversas, tudo foi sendo esclarecido.

Falando sobre o preconceito da sociedade por ser gay e/ou ter uma Drag, Guilherme é categórico: “Qualquer gay que responda 'não' a essa perguntara estará mentindo. Sofremos preconceitos extensivos, em tempo integral, vindo de todos os lados. Mas, não gosto de posar como vítima; pelo contrário, valho-me do preconceito para dar força à minha voz e para sentir orgulho de quem sou. A Rita também sofreu, mais no início. As outras Drags achavam que meu visual era de transformista, que eu não era uma Drag, que Rita era feminina demais (isso existe?) e a Rita acabou tendo de validar-se nesse meio também”.

A formação da Rita conta com referências clássicas e ma-ra-vi-lho-sas tanto internacionais - Rita Hayworth -, como nacionais - Carmem Miranda -, questionando se acredita que as Drags e suas performances também são um movimento cultural, Guilherme “sambou” nos preconceituosos: “Drag é cultura. A definição mais básica de cultura é pro-du-ção. Olha só: Cafeicultura (produção de café), Apicultura (produção de mel) e por aí vai. Quando se monta uma Drag está se produzindo algo, logo, estamos deparados com uma cultura. Além dessa questão terminológica (risos), montar uma Drag é uma expressão de muitas artes, esculpe-se um corpo, pinta-se um resto novo, atua-se uma persona, dança um novo corpo, e por aí vai.

No Brasil, somos reconhecidas (não como gostaríamos), mas vejo como as Drags americanas são bem recebidas aqui, como cantoras pop ou ídolos adolescentes. Isso enche o meu coração de alegria! Existem muitos nomes nacionais que também lotam casas noturnas e arrebatam pessoas por onde passam, apesar de marginal e majoritariamente oral, temos uma história Drag forte no Brasil, uma cultura linda que não pode morrer”.

A participação da Rita no reality Academia de Drags mudou em alguma coisa a vida dela? E a vida do Guilherme, estudante de Letras e educador?

Fomos ambos afetados, acredito que de forma muito positiva, mais gente me conhece, troca ideia comigo, me contrata. Minha voz é mais ouvida, tenho mais gente disposta a me ler, isso tudo como Rita. O carinho das pessoas tem sido incrível e poder tocar pessoas de forma sensível, escutar (ou ler) que minha Drag ajudou uma mãe ou um pai a aceitar seu filho é o mundo pra mim!

Como Guilherme, o professor, quase nada mudou. Às vezes no metrô, eu ouço as pessoas falarem "RITA!". De vez em quando, me reconhecem e é bastante inusitado e divertido, porque sou reservado, tímido e introspectivo. A Rita não! Quando me chamam por ela, é como um choque (riso), não sei se trago à tona a persona ou se reajo como criador. É um processo ainda em processo! (mais risos)

E se você pensa que Drag é bagunça, está muito enganado: “Rita é uma vivência artística do Guilherme. Uma lasca de mim, um apanhado de referências gestuais, imagéticas, que ganha forma e então pode existir. Durante o dia dou minhas aulas, estudo, trabalho, leio e faço tudo que um professor faz. Mas, enquanto ando pela cidade, assisto filmes, vou a lugares, estou cons-tan-te-men-te coletando referências para minha Drag. É a ela que dedico o pouco tempo livre que tenho.

Todo dinheiro que a Rita ganha é investido nela. Se em um mês ela receber R$600,00 teremos perucas, sapatos e roupas novas, se ela não receber nada ela ficara contente com o que já tem. Sou um homem casado, independente financeiramente e junto ao meu marido sustento uma casa, não posso misturar as coisas. O que ganho como Guilherme fica com o Guilherme.”

Driblar o preconceito? [#sqn]: “Bato de frente. A vivência artística é minha, o corpo é meu, a vida e a evolução são também minhas e somente minhas - únicas, pessoais e intransferíveis. Enquanto eu puder fazer a Rita não deixarei que ela seja marginalizada, ou que sinta-se assim.

Gosto de ter uma voz com a qual posso falar sobre esses temas, esclarecer duvidas e mostrar uma realidade que, talvez, encontrando ouvidos dispostos nos quais possa florescer em menos ódio, preconceito e ignorância.”

Guilherme, como também Educador, enfatiza “A educação é a maior força do bem. A educação pode mudar tudo! Acredito que uma educação de ensino fundamental que aborde temas como gênero e sexualidade pode sim contribuir para uma sociedade mais esclarecida e menos suscetível a reprodução de discursos de ódio, fascitóides e hediondos feito aqueles que ouvimos, por exemplo, durante os debates presidenciais de 2014 (Levy Fidelix, seu feio!)”.

Gui traz a questão para um debate muito polêmico que é, justamente o que busco aqui na coluna, atentar a escola para uma análise mais crítica e humana acerca das questões sociais. Cadê a Sociologia, a Filosofia, a Antropologia nas escolas? ~Kedê?~

É preciso formar cidadãos, pessoas que saibam criticar, refletir e discernir. O cenário de preconceito é também fruto de uma sociedade cega com escolas deficientes de formação humana.

Guilherme mandou um recadinho pra galera que ainda não tolera e não sabe lidar com essa diversidade linda: “Leiam, estudem, tenham curiosidade no lugar de aversão. Tenham compaixão no lugar de ignorância. Amem! <3 Nosso tempo no planeta é curto, nosso processo evolutivo é longo e sentimentos ruins são um atraso. Eu e você somos a mesma coisa, só tomamos caminhos diferentes. Reconheça o próximo que existe a sua volta, se afaste do que te faz mal, busque suas próprias conclusões. Leiam mais e se puderem, amem mais um pouco.”

 

Galera, desejo mesmo que a matéria de hoje amplie a visão de vocês, que ajude os Educadores e Pais a abordarem essas questões, paradoxalmente, com mais racionalidade e amor.  

É preciso tolerância e respeito para formar as crianças e os jovens que são o futuro do Brasil. A formação técnica não é o suficiente para moldar pessoa de bem, as competências comportamentais é que são o “Q” do progresso.

Um abraço e até o próximo encontro!

 

Maria Clara Paes
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Poeta de primeira viagem, escrevo no caderno, nos rascunhos, pela vida afora e coração adentro. Agridoce – tem que ter paladar! Louca por música e pelo Batman. Ora princesa, outrora batgirl, goy, birl, girltogirl, mas quem se importa? O importante é lacrar! Sou da Paes, sou Maria Clara. Vivo de amor profundo, já que o amor é a única revolução verdadeira. Chega mais que aqui tem jogo!

 

 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Redução não, Educação sim

Redução não, Educação sim

Racismo I Medidas reparadoras I Educação

Racismo I Medidas reparadoras I Educação

A arte como inclusão de grupos marginali…

A arte como inclusão de grupos marginalizados pela sociedade.

O feminismo pelo olhar transgênero de La…

O feminismo pelo olhar transgênero de Laerte Coutinho

Feminismo com Valesca

Feminismo com Valesca

Vai ter Drag Queen, sim!

Vai ter Drag Queen, sim!

Machismo, sobretudo, com as mulheres LGB…

Machismo, sobretudo, com as mulheres LGBTT