Havia duas coisas que a salvavam do abismo: ir à manicure e ver a novela das nove em seu dia de folga. Ah, como duas coisas tão ínfimas para uns poderiam dar a ela tanto prazer? Não era bem assim um prazer, eram apenas pequenas felicidadezinhas, bobeirinhas, como aquele guarda-chuvinha de chocolate que vinha no saquinho de “Cosme e Damião” no seu tempo de infância. Só quem tem essas minúsculas felicidades cotidianas entenderá questão.

Todos os sábados à tarde, ela ia à manicure. Pontualmente, às 14 horas, entregava mãos e pés a uma moça – que era responsável não somente por remover cutículas e passar esmalte, mas também por estabelecer uma conexão que as levava à reflexão de delas mesmas e do mundo ao redor. Ao posar delicadamente as mãos sobre o colo da moça, ela dizia: “E aí, Claudinha, viu a novela nessa semana?” A pergunta era o início de um longo diálogo – que divagava desde o capítulo da novela até as questões mais transcendentes, tais como “quem somos nós? De onde viemos? Pra onde vamos?”. Ao falarem da novela, das relações entre aqueles personagens, elas reviam a própria vida... E a nossa personagem real sentia-se tão gente naquele momento! Era como o destaque de escola de samba que para de se equilibrar em cima do carro alegórico e desce à avenida para sambar na frente da bateria. Ela despia-se dos disfarces sociais. Naquela hora, não havia título, currículo, papeis... Não era mãe, mulher, esposa, professora, mestra, doutora etc. Era apenas gente comum. Mas, o que significava isso? Como isso se operacionalizava de forma tão mágica? Livre de cobranças sociais, ela pintava – assim como as unhas – a si mesma.

Não se sentia menor ou menos inteligente por estar ali, em um salão de beleza, discutindo qual seria o fim do vilão da novela ou como a relação entre a protagonista e a sua rival iria se resolver nos próximos capítulos. Quem diria que o subproduto cultural, tão rechaçado por muitos pseudointelectuais, poderia fazer uma mulher culta repensar a própria vida? Mas, ela não se preocupava com as opiniões acadêmicas, era dona de si mesma. Sabia que a maioria dos que criticavam o ato de ver novela mal leem um livro por ano. Ela fazia suas leituras acadêmicas, culturais e de lazer a todo momento. Contudo, na manicure, ela fazia a “leitura de mundo”, discutia as representações sociais presentes no enredo novelístico, analisava o discurso e seus impactos sobre a vida de quem tirava uma hora do seu dia para ficar diante da TV a acompanhar aquela trama.

Mas, voltando ao exemplo do destaque de escola de samba, ela sabia que muitos daqueles que pensavam ser o salão de beleza um lugar fútil, de conversas de baixo nível, são pessoas que querem se equilibrar em seus carros alegóricos. Jamais vão conseguir descer e sambar diante da bateria, porque necessitam esconder-se diante de seus papéis sociais, não se dão o direito de aproveitar o que é corriqueiro, trivial... Sem saber que é na banalidade das coisas cotidianas que mora o extraordinário. É a nossa vidinha besta, com todos os aborrecimentos diários, que é sublime! Talvez você discorde desse pensamento e tem todo direito, é claro... Talvez você imagine que é em uma rotina esplendorosa, como a de uma celebridade ou a da rainha da Inglaterra é que seja boa. Contudo, talvez, o grande mistério de nossa existência resida justamente em saber que é a trivialidade de nosso cotidiano que nos faz heróis, porque só cada um sabe o que tem de enfrentar para viver cada dia... São esses desafios diários e as pequenas felicidades que tornam a nossa vida “superiormente interessante”!

Sandra Araújo
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Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas e tenho mestrado em Teoria Literária pela UnB. Atualmente, sou professora substituta no Departamento de Línguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), da UnB. Leciono também Literatura na Faculdade Jesus Maria José - FAJESU. Vivo Literatura e vejo poesia em tudo!

Comentários  

+1 # Gabriela 23-03-2014 01:53
Ai...que saborosas são as trivialidade do cotidiano!!! Adorei o texto!!!!
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