Tem algumas palavras que não suporto; “bojo” e “cômpito”, por exemplo. Trabalhei com uma professora que sempre dizia: “no bojo dessa atividade...”. Ai, que irritação! Também tive uma coordenadora, em uma escola onde lecionei, que repetia constantemente nas reuniões: “no cômpito geral...”. Era uma comédia! Como é engraçado quando as pessoas aprendem uma palavra e ficam repetindo aleatoriamente, com um apego inimaginável!
Foi assim quando aprendi a palavra “sentimento”. Li no poema de Adélia Prado: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento.” Aquilo pareceu descortinar um novo mundo para mim! Era absurdo como aquilo entrava em mim e me fazia respirar outro ar, ver outras coisas, perceber novos sentidos... A minha identificação com a voz do poema era total, éramos uma só! Era uma verdade que sempre vivi, mas que só descobri em mim depois do poema! Precisei ver a vida representada no poema para entender a vida vivida, como o sentido que ganham os girassóis depois de se ver uma tela de Van Gogh.

Assim prossegui... atenta ao sentimento... A poeta tinha razão, ele é uma coisa fina, um artigo que não se compra em free shops nem em outlets. Não adianta ir buscar em Miami, lá não é mais barato. O sentimento posto em nossas ações tem um enorme poder! Comecei a pensar isso no mesmo instante em que li o poema. Se não fosse o sentimento, como alguém sobreviveria a todos os desafios da vida? Sem sentimento, como suportar o cotidiano? Como aguentar as dores, as perdas, as injustiças, sem sentimento? Não há respostas... Será? Ele nos move... Pus todo o sentimento do mundo em uma aula de literatura, mas o aluno não entendeu. Reclamou para a direção: “aquela professora foge do assunto, dá até exemplo de coisa que passa na televisão!” Mas, eu tinha muito sentimento para ouvir da diretora a reclamação, entrar em sala novamente e insistir em ensinar um artigo de luxo. O sentimento foi tão grande que preparei a aula mais tradicional, daquelas com apostila e exercício para fazer. Naquela aula, o aluno aprendeu mais palavras, ampliou seu vocabulário, saiu repetindo com confiança vocábulos da moda: “híbrido”, “sustentável”, “logística”... Ele ficou satisfeito!

Se tenho remorso do que fiz? Nenhum. Enchi-me de sentimento novamente e preparei aula especial para outra turma, para quem também tinha muito sentimento em me ouvir. Entrei em sala com um enorme sentimento de respeito por quem acorda cedo, pega condução, trabalha o dia inteirinho e vem de longe, já no fim do dia, no auge do cansaço me ouvir falar do que não se pode apalpar!

Sandra Araújo
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Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas e tenho mestrado em Teoria Literária pela UnB. Atualmente, sou professora substituta no Departamento de Línguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), da UnB. Leciono também Literatura na Faculdade Jesus Maria José - FAJESU. Vivo Literatura e vejo poesia em tudo!

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