Há duas “qualidades de gente”, como dizia minha avó, que invejo demais – invejo mesmo, do fundo do meu coração, e digo assim abertamente: invejo – que são os poetas e os cineastas. Eles sabem, como ninguém mais nesta terra, captar um instante. Pegam um lampejo da vida e zás! A vida fica eterna!

Um poeta viu a simpática fachada dos prédios de Brasília, os famosos cobogós, e rimou com bongô. Pronto! Um coração nunca mais vai parar de bater, porque cobogó e bongô deu o compasso acelerado de uma urgente paixão, eternizada nos versos de quem teve o despojamento de ser usado como instrumento da palavra poética. É isso, os poetas se entregam. Eles não temem o que a poesia lhes diz, apenas escutam e escrevem. Não se trata de psicografia, muito pelo contrário, é como na tela em que Rembrant retrata o evangelista São Mateus – há o sopro de um anjo no ouvido de quem pega a pena e escreve.

Um anjo também sopra naquele que pega uma câmera e registra um instante. O cineasta também eterniza momentos, segura o tempo com a sua câmera.

Quando volto da faculdade onde trabalho, em Taguatinga, para minha casa no final da Asa Norte, eu poderia fazer o caminho mais curto, mais rápido para estar logo em minha cama depois de uma longa jornada em sala de aula. Mas, nunca escolho o caminho mais curto. Quero sempre o plano cartesiano que foi traçado cuidadosamente por um poeta. Aí, então, pego o Eixo Monumental e como se possuísse uma câmera nas mãos, faço uma filmagem em plano baixo, pra pegar cada detalhe, do asfalto até as estrelas. No chão e no céu - que é “traço do arquiteto” - somos só eu e meu Fiat Uno, só nós – velhos companheiros, com as histórias e as memórias de nossos percursos.

Brasília é um imenso céu aberto, que nos possui sem nos darmos conta. Ao contrário do que se diz, que a modernidade dá um ar frio a esta cidade, somos tragados pelo paraíso a qualquer momento e envolvidos por uma energia que nos aquece. Mas, como afirmava Rilke, “a poesia está nos olhos de quem vê”. É esse o segredo. Os poetas e os cineastas têm olhos diferentes. Enquanto algumas pessoas enfrentam o trânsito, reclamam da seca e aturam relações de funcionários públicos, os poetas enxergam uma rima para cobogó e bongô, e os cineastas invertem o plano da câmera, aproximam-na ou afastam-na da cena para dar um realce de beleza. Registram de alguma forma o que é inapreensível.

E é exatamente isso que tento fazer todos os dias quando cruzo os eixos desta “cidade-céu”. Busco embreagar-me neste azul tilintante, que faz do meu coração o bongô que rimou, um dia, em um instante precioso, com o cobogó do bloco onde moro.
 

Sandra Araújo
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Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas e tenho mestrado em Teoria Literária pela UnB. Atualmente, sou professora substituta no Departamento de Línguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), da UnB. Leciono também Literatura na Faculdade Jesus Maria José - FAJESU. Vivo Literatura e vejo poesia em tudo!

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