O que dizer sobre essa experiência fascinante que é a maternidade? Sinto-me muito feliz por tudo o que vivo a cada dia!

Nunca tive uma visão cor-de-rosa da maternidade e, desde sempre, soube de tudo o que estava em volta da decisão de ter filhos. Mesmo assim, fiz a minha opção. E não me arrependo.

Além do desafio de gestar, cuidar e educar outro ser, amarguei algumas perdas... Uma delas foi a de amigas que fizeram outra opção e não aguentaram aquele papo sobre amamentação, fraldas e pediatras! Houve as que me chamaram de antissocial! Como doeu!!! Mas, como ser sociável quando se tem um ser que precisa de você e dos seus seios 24 horas por dia? Contudo, a experiência de entrega é tão compensadora que só pode ser explicada pela mística. Ninguém conseguirá explicar racionalmente o que faz uma mulher passar horas acordada, cuidando de alguém tão indefeso, amamentando, reconhecendo o significado de cada choro, esquecendo-se de si mesma... E essa foi outra perda que deixou um "travo meio amargo": a de mim mesma... Por algum tempo, substitui os filmes do Lars Von Trier e do Woody Allen pelo último DVD do Cocoricó e do Patati Patatá. Muitos jantares românticos foram interrompidos por um choro que cortava a noite. Troquei meus livros de literatura por todos os que tratavam do parto natural. Meu querido Mulheres que correm com os lobos deu lugar ao Lobas e grávidas. Substituí os teóricos da literatura por Michel Odent (o médico que redescobriu o parto natural). Aí, tive de amargar os comentários: "Você tá louca de ter parto normal?", "Não inventa, você não é índia pra parir sem anestesia!" Foi quando descobri que a maternidade mexe não só com a mulher, mexe com todos que estão a sua volta... Como é difícil resgatar algo tão feminino em uma sociedade que transformou o ato de nascer em uma indústria! Lutei bravamente e resisti à indústria das cesárias!

Também foi difícil assistir à primeira aula quando iniciei o doutorado... Todos os meus colegas de sala estavam por dentro das novas tendências da literatura. E eu me perguntava a cada comentário que ouvia: "Meu Deus, onde estive durante esses anos?". Eu me sentia um tanto aérea. Entretanto, aos poucos, fui me reencontrando... A maternidade tem isso, é um reencontro - com as sombras e com a luz. Passei a rever as relações de filha, irmã, esposa, mulher, profissional. Tudo ganhou novo significado, porque uma mãe é dupla - pensa por si, mas também pensa no outro. E o feminino tem algo de maravilhoso, porque promove uma certa identificação entre as mulheres... Então, eu mulher-mãe passei a estabelecer novas relações, fiz novas amizades. Encontrei mulheres que também se sentiam como eu e logo tratei de segurar esses presentes do universo. Depois, fui resgatando as amizades antigas e tentando provar a elas que eu ainda sabia falar de outros assuntos, não estava anulada...

É por isso que insisto: não há raciocínio lógico que explique o que é isso, o negócio é espiritual, está em outra esfera. Porém, não acredito que a experiência possa ser vivida exclusivamente pela via biológica. Há outros caminhos. Uma mulher que queira ser mãe pode vivenciar tudo isso também pela via da adoção, desde que se entregue à decisão e permita a si mesma amar outro ser. Essa é a questão da maternidade: amar! 

Sandra Araújo
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Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas e tenho mestrado em Teoria Literária pela UnB. Atualmente, sou professora substituta no Departamento de Línguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), da UnB. Leciono também Literatura na Faculdade Jesus Maria José - FAJESU. Vivo Literatura e vejo poesia em tudo!

Comentários  

# Karina 27-02-2015 03:18
Sandra, ou melhor, professora :) que retrato fiel da minha vida, verdade, da minha mesmo. Especialmente quando você, para a minha alegria máxima e emoção e alegria, falou sobre ser mãe por adoção, que foi e é a minha maneira de amar e ser mãe :)
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# Sandra 03-03-2015 15:29
Citando Karina:
Sandra, ou melhor, professora :) que retrato fiel da minha vida, verdade, da minha mesmo. Especialmente quando você, para a minha alegria máxima e emoção e alegria, falou sobre ser mãe por adoção, que foi e é a minha maneira de amar e ser mãe :)

:lol: :lol: :lol:
Que felicidade!!! Como é bom saber que meu texto te tocou! Obrigada pelo carinho! Bjs. Bjs. Bjs.
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