Achava que depois de ter parto normal ficaria imune a qualquer dor ou medo. Sei lá... não teria mais medo de hospital, de agulha, de dentista, da perda de um filho, da morte. Não sentiria essa angústia que dá quando a gente sabe que alguém vai ser operado, que aquele tio está na UTI etc. Achava que ficaria dotada de poderes sobrenaturais, afinal de contas parir é um ato espiritual, além de carnal. Pois bem, eu pari. Forte e valente como uma loba. Mas muitos medos ainda me rondam! Não são sintomas, não fazem parte de alguma crise depressiva, de pânico ou de ansiedade. São os medos que, ao mesmo tempo em que me paralisam, impulsionam nova forma de respirar o ar da minha vida.

Já tive medo de um artigo meu ser aceito para um congresso internacional, pois isso implicava viagem, exposição, saída da zona de conforto. Situações como essas servem para mostrar a que vim – para a comunidade acadêmica, é claro, que para o resto da população mundial, pouco interessam as minhas considerações sobre a poesia de algum escritor –; e isso é aterrorizante! Também tive medo de colocar no artigo o que realmente pensava e mostrar a todo mundo o que penso! Eita medinho terrível!!! De repente, vão descobrir que existo: era esse o medo!

Também já tive medo de amar. O amor se insinuou, rondou a minha toca... E eu me escondi várias vezes. Guardei o vestido no armário e deixei nele o gosto do brinde que não houve, do que poderia ter sido. Esse também era um medo de que alguém me descobrisse... Acho que era pior, era o medo de descobrir a mim mesma naquele amor... Todos nós temos nossos medos! Ufa! Como é bom ser humana! Não quero ser santa nunca! É bom saber que o amor me espreita e eu paraliso diante dele, finjo de morta, por puro desejo... Escuto uma canção, leio um poema e não temo mais, continuo a desejar... Aí, tiro o vestido do armário, fico toda enfeitada, faço a maquiagem e vou ao encontro do que me espera...

Esse avançar e recuar dos meus medos é como o parto e as contrações do útero – depois de um tempo, quando as dores evoluem, não há mais medo algum: o desejo é simplesmente resolver a questão, fazer o que é para ser feito. Reparem bem no que disse: “é para ser”! Está no caminho! Na verdade, é o caminho. Por isso, é leve, não há dor! Não há o que temer! É só se entregar...

Sandra Araújo
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Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC Minas e tenho mestrado em Teoria Literária pela UnB. Atualmente, sou professora substituta no Departamento de Línguística, Português e Línguas Clássicas (LIP), da UnB. Leciono também Literatura na Faculdade Jesus Maria José - FAJESU. Vivo Literatura e vejo poesia em tudo!

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