No dia de 30 de outubro de 2013, o sergipano Diego Costa, jogador de futebol do Atlético de Madrid, rejeitou uma convocação prévia da Seleção Brasileira de futebol para dois amistosos, alegando que, por motivos inteiramente pessoais, não poderia defender a seleção do país em que nasceu, motivos esses de formação, agradecimento e sentido de nova pátria que tomava conta do espírito do jogador, este novo país, que o tinha naturalizado, era a Espanha, pelo qual ele agora jogaria. Chegou a dizer, ainda, na carta, que a decisão não fora fácil, pois ama o país onde nasceu, mas que era uma decisão final e solicitava não ser convocado para a seleção brasileira para mais nenhuma atividade futebolística oficial ou não oficial, fosse qual fosse o valor do jogo.

Em uma rápida fala à imprensa, o técnico da seleção brasileira, o conhecido Luiz Felipe Scolari, vulgo Felipão, primeiramente desconvocava o jogador, já que este assumia não ter interesse em jogar pelo Brasil, algo até aí normativo da função. Mas, não contente, ergueu uma segunda frase gravada que dizia: "Ele está dando as costas para um sonho de milhões". No dia seguinte, ainda uma terceira manifestação podia ser vista no site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), em que os membros diziam recorrer ao Ministério da Justiça para requerer a cassação da cidadania do jogador brasileiro. A partir daí, o misto de outras manifestações de Felipão e da CBF, como também o descontrole do treinador em entrevista coletiva pós-convocação, sugeriram que o problema não estava necessariamente superado, e não era mais uma questão de querer ou não querer de um jogador em jogar pela seleção: era uma questão nacional, nacionalista, patriótica?!

Esse conjunto de informações foi seriamente discutido por parte independente da mídia brasileira, uma outra parte deu a notícia sem explorar os conteúdos subentendidos e sem debater a série de problemas, gafes, contradições e o teor fascista/xenófobo do que estava por trás das declarações do técnico da seleção brasileira e de José Maria Marin, presidente da CBF.

É muito claro que a questão parece remeter a um problema unicamente do mundo do futebol; o evento só ganhou a variante de um debate mais amplo, por configurar além de outras inúmeras questões de ordem histórico-políticas, uma ação altamente complexa no campo da linguagem como reprodução das atitudes, o que ia revelando uma dúvida sobre a defesa da nação, como a levantou Felipão, inicialmente, em sua fala.

Entre os graves elementos contraditórios, as investigações jornalísticas primeiro lembraram que José Maria Marin é uma das figuras mais sórdidas dos tempos da ditadura e também levaram ao conhecimento do público que este mesmo Felipão teria levado os jogadores Pepe e Deco, ambos brasileiros, alagoano e paulista, a jogar pela seleção de Portugal, quando ele dirigira a esquadra portuguesa na Copa do Mundo de 2006. E a pergunta, então, passava a ser: Felipão é nacionalista só quando lhe interessa?

Esta resposta ainda será dada um dia, talvez não completa; mas mais interessante que a persona de Felipão é a avaliação desqualificadora que o discurso mal colocado constrói. Basta ver que nas 48 horas subsequentes ao ocorrido as redes sociais já abriam o debate frenético entre os grupos do antijudas-iscariotes-Diego-Costa, contra outros que atestavam legítima a escolha do jogador.

Felipão não é bobo, se ele não é um analista do discurso propriamente dito, ele é alguém que sabe que o discurso tem força para alterar os ânimos e agregar ou desconstruir valores e ações. A atitude do treinador não é a de um estadista, pois quando ele quer: o futebol é a pátria de chuteiras, é o Brasil: ame ou deixe-o! Se ele perde: gente, o futebol é só um esporte!

O treinador queria sem dúvida uma mobilização antecipada em torno do amor a seleção brasileira e, com isso, ele que é do sul, surgiria como um novo Garibaldi, algo do gênero, a piada é que Garibaldi não era brasileiro!

A Copa do Mundo será aqui, e o treinador com essa sua atitude ufanista convocou os nacionalistas de plantão a erguerem a bandeira: ABAIXO DIEGO COSTA, DESERTOR DA PÁTRIA! Ele só não sabe as consequências desse movimento contra a liberdade, porque se afirmou como o tirano do discurso, aquele que o ego jamais dará espaço à razão coletiva.

Felipão não conhece Lagarto, em Sergipe; conhece o hotel cinco estrelas em Aracaju e em outras capitais brasileiras onde a seleção deita em berço esplêndido para esperar a hora da partida, por isso ele desconhece e não quer conhecer a realidade do menino que saiu do interior miserável do Sergipe e que ganhava R$ 400,00 em um clube de várzea de São Paulo, com os primos dizendo a ele em forma de chacota para abandonar o futebol e vender bugiganga na 15 de Março; e o garoto persistente, descoberto por um empresário português, foi parar na Europa sem nunca ter sabido o que era jogar no futebol profissional do Brasil e tendo sido rejeitado por Corinthians e outros clubes.

A Espanha não é o melhor exemplo de país de espírito cosmopolita, o racismo ainda grita forte nas terras espanholas, de forma assustadora, mas o que está em jogo não é a Espanha ou o Brasil, é a inadequação, o arcaísmo e o autoritarismo de um discurso e de uma linguagem que se impregna de verdade para dar vazão ao narcisismo de homens como Felipão, cuja a preocupação com o futebol é tão questionável quanto o amor que ele tem por si próprio, e o que está no fim. Afinal se ele traz a taça, torna-se um técnico único, único na história, ao conquistar a segunda copa pelo Brasil.

Nesse caso, digo, sem concessões, que pode ele ganhar dez copas, mas jamais será do ponto de vista do futebol e da sociedade o que foram Telê Santana e João Saldanha, de quem ele deveria ler as biografias para recuperar o senso mínimo de compreensão de que o futebol presta um serviço ao povo brasileiro e a qualquer povo, mas o problema maior de um país como o nosso é a falta de educação e saúde que a Lagarto de Diego Costa e o jogador conhecem tão de perto.

O ex-jogador Romário disse, em certa época, que Pelé, o rei do futebol, calado era um poeta, e as declarações retrógradas e conservadoras tantas vezes emitidas como opinião por aquele que dizem ter sido o maior dos deuses com a bola nos pés contrastam com a opinião do último dia 4 de novembro em entrevista. Afinal Pelé diz não só que entende como também aceita a decisão de Diego Costa. Será que Felipão também contestará Pelé? Possivelmente vai se omitir, afinal, para Felipão e para muitos brasileiros, a pátria é só o lugar onde se faz a fama.

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

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