Esta semana recebi um poema de Paulo Leminski do meu velho amigo Gilmário. Este estava encantado com os versos de rebeldia do poeta curitibano, erudito e marginal que foi, homem que viveu não mais que quarenta e poucos anos, e que ia do japonês como língua de leitura e tradição à vida em uma comunidade hippie. Os versos enviados a mim pelo meu amigo mostravam uma sensibilidade enorme do escritor com a vida cotidiana, mostravam um extremo conhecimento do funcionamento da máquina política da história e revelavam a inquietação deste homem que parecia mesmo ter problemas com os esquemas prontos dados pela sociedade capitalista moderna, os versos:

Me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão
(Paulo Leminski - Para a liberdade e luta)

O mais engraçado foi ter revelado a Gilmário que eu tinha meio aversão à poesia de Leminski, pois nunca tive muitas afinidades com o pessoal da lírica brasileira pós anos 1960, marginais, pop-art, concretistas, tropicalistas, pois esta poesia pouco me sensibilizava, o mais próximo disto que gerava em mim um gosto e ganho estético eram Mallarmé e João Cabral de Melo Neto, mas confessei também que este juízo de valor era coisa do jovem de 20 anos que no curso de Letras se atrevia como crítico literário. Depois, então, respondi ao amigo:

"Fazia muito tempo desde os imaturos 20 anos que não lembrava de Paulo Leminski. Até por ter brigado muito contra ele em outras épocas, o colocava num grupo meio marginal que me soava alienação, e estes versos só provam que  todo julgamento sobre a grande poesia é teoria literária e crítica literária, não é nada além disto, segundo que arte é revisitação, e terceiro, estes versos dele são como a continuação da voz de Maiakóvsky que não deixa meus ouvidos em paz, e sussurra vez em quando o histriônico barulho do proletariado pedindo passagem e relembrando a nossa origem. Agora os dois versos finais são de uma beleza tão singular, que só podemos estar diante de um grande momento poético realizado por este rapaz sem grupo ou escola literária, mas com a percepção lírica dos que observam o mundo com a sensibilidade coletiva e o reconhecimento de que o homem é mesmo o misto de amor e finitude, para além disto não nos foi dado, ainda, conhecer maior resposta..."

O poema acabou mesmo por mexer comigo, fui ler de novo parte da poesia de Leminski e descobri que ainda não é o meu poeta favorito, mas sei com certeza, que se vivo, seria um poeta da internet, pelo menos em parte de sua obra, porque a sua obra fala de coisas rápidas, com um conteúdo intenso, denso, extremo, revolucionário pessoal e social, e reproduz um espaço marginal, à margem, onde é possível dar voz a quem muitas vezes não tem onde colocar a voz. Como o poeta viveu em meio aos concretistas Haroldo de Campos e grupo, como viu a humanidade chegar a era do computador doméstico, mas não pode se encontrar com a internet, como o poeta teve contato com a MPB de Caetano Veloso a Arnaldo Antunes, pois morreu em 1989, resolvi relembrar que este bom poeta brasileiro existe (interessante é uma das condições dadas pela natureza a professores de arte e literatura, que é não fechar questão como ideólogos e filósofos e outras áreas o fazem, tão ortodoxamente, o que nos permite voltar atrás e revisar nossos gostos, o que para eles é bem mais difícil) e relembrar que há poemas dele deveras interessantes na leitura dinâmica e transformadora da era digital como o poema abaixo:

Não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
(Paulo Leminski - Não discuto)

Basta ver, rápido, cabe no twitter, é filosófico, tem espaço de manifestação, tem formato de algo feito no computador, caberia em um cartão de aniversário ou natal, cheira a falso, mas é verdadeiro, pois ainda existem os livros para comprovar, certeza de que este cara estaria "bombando" na rede.

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

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