“Cristo bota fé nos jovens”. Desde o primeiro discurso do Papa Francisco em solo brasileiro, os mais diversos analistas procuraram de tudo até “pelo em ovo” (o poder da linguagem coloquial é mesmo sedutor), óbvio uns queriam puxar o saco, outros descer a lenha no Papa, aliás, este é o papel da imprensa, claro além do principal papel que é analisar com distanciamento e em busca da verdade, aquela velha e importante ladainha entre os jornalistas.

O que ainda não está claro é a dimensão do alcance da linguagem deste Papa. Como não quero fazer especulações ou elocubrações políticas, filosóficas, teológicas, eu não tenho capacidade para tal, quero manifestar (outra palavra da moda) o meu olhar o tempo todo atento a este misto de português, espanhol, pouco latim e italiano, pouquíssimo, usados todos aqui na Jornada Mundial da Juventude pelo Papa, e qual o porquê da preocupação da linguagem usada por ele?

Os últimos papas, principalmente João Paulo II e Bento XVI, foram homens da geração das múltiplas mídias, assim como este último é delas e ainda do Ipad, Ipod, Facebook, mas os dois ainda traziam aquela vestuta solenidade de falar pouca coisa em mil línguas, falar bem a língua original de seus países, falar grego e latim, línguas que ninguém mais fala, e dominar alguns outros idiomas, mas sempre a solenidade da voz do Papa, que aparecia com aquele tom da voz de Deus encaminhada pela voz de um homem, velhinho, sábio, estudado, já parecendo sublimado pela natureza, e todos esperavam algo muito parecido no Papa Francisco, mas, ao meu modo, como se diz em boa terra, o homem Francisco é também velhinho, mas para por aí, porque até agora a linguagem é a do Pároco, homem que representa Deus, mas que está longe do poder de ser vetor da voz da Deus.

Este Papa Francisco não transmite a voz de Deus: a sua voz é a voz de um homem, experimentado pela vida jesuítica e com características franciscanas. Procura saber a voz do povo, como um bom orador tenta adequar a voz ao tipo de plateia, transmite a sensação pela voz que o mundo dos privilegiados, como os papas, é o mundo igual ao nosso, veja-se algumas vezes os sons captavam como em Aparecida ele revendo velhos conhecidos de outros tempos e dizendo: ‘ô fulano quanto tempo...’ e a grande pergunta é se ao envelhecer mais ele encontrará novamente a voz de Deus que só aos papas é dada e se distanciará da voz dos homens. Posso lhe dizer que a impressão é que o povo se sentiu mais perto do Papa, não porque ele repete o carisma de João Paulo II, mas porque sua voz é a voz dos homens, e o nosso tempo não sente falta de Deus, que sempre aí estará, mas sente falta é de Humanismo. E o meu feeling, ando afiando meu inglês para comprar em Miami, é que este Papa não é pop, mas é tão simples que até Agostinho e Aquino se remexem no túmulo querendo ouvi-lo para saberem se estavam certos de tanta inteligência verbal que a Igreja criou ao longo dos séculos, saeculorum!...

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

Comentários  

# Almerinda Garibaldi 22-08-2013 01:31
Ôi Tiago, que saudades de nossos tempos de FAJESU!
Apreciei cada parágrafo de seu artigo, e vi que seu foco maior foi a voz do Santo Padre, mais que em sua linguagem. Percebi também que o Papa Francisco além de carisma traz meiguice na voz - um tom ameno, carinhoso de se dirigir ao público que nos cativou e nos fez avaliar certos valores desse Humanismo, citado por você, e que há muito temos esquecido ou negligenciado.
Gostei muito do seu texto. Ah... E se precisar de apoio para o Inglês, antes de Miami, é só me procurar.... :lol:

Abraço!
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# Tiago CArvalho 02-09-2013 02:26
Almerinda minha amiga muito obrigado pelo comentário e pela lembrança, coisa boa é o reencontro nem que seja pelo mundo virtual. abs TIAGO
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