Em belíssima entrevista no ano de 2012, o importante filósofo marxista Alain Badiou, ao dar longa entrevista sobre o Comunismo, conecta, em ato de rara coragem, a questão considerada por muitos superada, o viés político do comunismo, a uma reflexão acerca do amor e em certo ponto diz: "O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação". E o que é então tão marcante neste momento histórico chamado por Badiou de contemporâneo, que pode afastar-nos uma vez mais da realização coletiva do amor, possivelmente a enorme conta consumista do pertencimento das coisas, e deste valor extraordinário dado às coisas em detrimento do humano.

Países como Brasil, que viveram recentemente uma eleição e puderam experimentar essa total falta de rumos, é o claro exemplo de uma política, aqui não como sistema, mas conceito coletivo, inato para quem cresce em sociedade, de que tudo para nós é sempre o que nos dará fruto, o que nos será garantido, o que nos manterá até a morte como estamos, o que nos circunda e pode ser ameaçado. É a total indiferença com o princípio universal da alteridade, há o outro, e não há só você no mundo. Preconceito, reafirmação da violência, sectarismo, barreiras, linguagens específicas em demasia, humilhação pelo conhecimento, humilhação pelo capital, a natureza da questão de gêneros extrapolando o direito de mostrar-se para o direito de uso egoísta do espaço... E poderíamos ficar a listar inúmera sequência das aberrações que construímos.

A pergunta é muito simples: então o que fazer para que o amor não esteja ameaçado por esta fronteira entre o contemporâneo e o neocontemporâneo que parece construir a destruição definitiva da raça?! Não há uma resposta definitiva, mas há duas possibilidades como caminho: a primeira é mudar o paradigma da educação ocidental para o amor, se a família não deu conta deste projeto elementar, um espaço mais distanciado e de boa forma "descompromissado" como a escola terá de ceder do plano das informações para o plano do amor, tarefa de uma nova pedagogia.

Segundo espalhar pelo mundo letras de canções como a simples mais de bom recado universal e de união, sem o grito, a força e a esperança de liberdade, para os que mais sofrem, que é a bela Canción con todos imortalizada na voz de Mercedes Sosa, sem as vozes e as mãos juntas, sem os homens tentando reduzir esta desigualdade maléfica, a conta humana contra o amor pode ficar cara, possivelmente o fim de humanidade:

Salgo a caminar
Por la cintura cósmica del sur
Piso en la región
Más vegetal del tiempo y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de América en mi piel
Y anda en mi sangre un río
Que libera en mi voz
Su caudal.

Sol de alto Perú
Rostro Bolivia, estaño y soledad
Un verde Brasil besa a mi Chile
Cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña América y total
Pura raíz de un grito
Destinado a crecer
Y a estallar.

Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser canción en el viento.

¡Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz!

com afeto
TIAGO CARVALHO

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

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