O conceito de mudança de uma Língua sempre foi mais abrangente que as percepções hodiernas de uso do sistema de comunicação oral e escrito. No caso específico da Língua Portuguesa e seu tronco latino, a própria origem - as línguas neo-latinas já eram fruto de uma linguagem vulgar na síntese do latim original com a língua dos ditos povos bárbaros - marca um perfil de assimilação, apropriação e construto histórico que é revelador.

Se tomarmos como exemplo o Brasil, é fácil verificar como o percurso da famosa síntese das três raças, associado ao desembarque imigratório, entre os séculos XVIII e XIX, produziu todas as peculiaridades de um universo linguístico particular da Língua Portuguesa em nosso país. Talvez, este fenômeno seja uma obviedade em todos os países cujo marco colonizatório tenha se construído nas bases da imposição linguística; contudo é este processo o responsável pelo caminho mais amplo de observação, especulação e investigação das transformações de uma língua.

Sem esses pressupostos, parece mesmo que o olhar para o fenômeno do tipo “as transformações linguísticas da atualidade, configuradas ainda pela profunda interferência dos meios tecnológicos” seria meramente observar que uma língua trabalha sua mudança no campo das conveniências e necessidades, quando o que observamos é uma ação complexa, ora pelo caráter antropológico e social de um povo que não pode ser negado, ora pelo que podemos chamar de segunda Imposição. Segunda imposição é um nome que podemos dar a linguagem tecnológica sem fronteiras, que usa e abusa das suas surpreendentes possibilidades, e se um dia a certos povos foi imposta uma Língua em nome da cultura e da religião, agora em nome da linguagem da necessidade, que não diferencia colonizador de colonizado, esta abstração concreta imposta a todo planeta, este novo sistema de comunicação totalmente universal é a ida sem volta, e a não adequação pode ser uma luta desesperada contra um elemento irreversível e não controlado.

No que diz respeito à Língua Portuguesa e ao seu caráter diacrônico, ainda a pesquisa sociolinguística continua a verificar os fenômenos de transformação adentrando debates densos sobre a nossa capacidade de adequação (se Sérgio Buarque de Holanda via esta facilidade de adequação do colonizador português em detrimento dos outros modelos colonizatórios europeus, hoje já sabemos que a via de mão dupla apresentou certo gosto de transformação implícita, sutil que outros povos provocaram em nossa Língua e na nossa cultura), e de outras questões que abrem o leque de pesquisas elididas na natureza do conceito de Língua, do pacto linguístico, do preconceito linguístico e, na atualidade, sem nenhuma dúvida da cultura linguística tecnológica seus aspectos producentes, contraproducentes, de interferência e imposição inevitáveis.

Qualquer posicionamento tácito ou definitivo sobre as mudanças provocadas pela Língua da rede, internet, redes sociais, mídias contemporâneas, corre grave risco invariavelmente total de criar uma gama de novos preconceitos, logo talvez ninguém deva ter certezas definitivas sobre o alcance desta linguagem; o que não se pode deixar é de antever por um lado as facilidades de intercâmbio comunicacional entre povos e instituições, observando a rapidez de algumas ferramentas (o google tradutor, por exemplo), mas por outro lado verificar se ainda mantemos a paciência para ler um clássico como Machado de Assis. Aliás, essa paciência já não existia em grande parcela da população brasileira. Logo tendemos a culpar a linguagem imediatista e sintética do mundo virtual, pela nossa constante inabilidade e impaciência em leituras mais densas. Afinal, agora estamos entre o extremismo desesperado dos cultistas e a libertinagem dos transformadores de plantão da linguagem tecnológica, que dizem assim: "Adequa aí este texto machadiano, põe em outra mídia, simplifica a linguagem?!". O que temos talvez é uma luta contra os extremos, não contra a absorção inevitável da linguagem tecnológica.

O reflexo dessa transformação idiomática, além da entronização anglófono-tecnológica é a variante neológica, muito mais estimulada em nossa Língua Portuguesa-Brasileira, e as dificuldades em estabilizar o discurso mínimo comunicativo entre as gerações, este sim é um desafio bem imediato.

Um certo dia quando o pessoal da Estética da Recepção, lá na Alemanha, iniciou uma maior observação sobre o papel do leitor, talvez eles não pudessem imaginar que o leitor não só ganharia seu papel relevante, como poderia ser ele o responsável por abolir a figura do escritor, e criar o metatexto tecnológico que é o texto de ninguém e de todo mundo. Se vale tal reflexão para a Língua, é a possibilidade de um dia em que o homem não se preocupe mais com o tronco, a raiz, o nascimento da cultura e de uma língua, já que isto seria profundamente desimportante, e seria então a linguagem tecnológica, esta segunda imposição, uma coisa tão completa para tudo e todos, e ser ela mesma em essência a própria marca da desimportância.

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

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