Estes dias eu estava matutando sobre o tal fenômeno da memória curta do povo brasileiro, talvez por um sentido de nostalgia que tem me tomado o espírito nas últimas semanas; dizem que é reconhecimento da chegada da idade avançada.

O problema é que idade avançada não é medida pelo IBGE, no máximo a expectativa de vida. E se a tal memória curta é mesmo um aspecto a mais da nossa identidade, ou não; sei que neste ano de Copa, eleições, etc estão por aí relembrando a memória dos vinte anos de morte do Ayrton Senna, que é legítimo; mas eu quero usar a minha para falar da saudade que me deu estes dias quando um dos raros meios de comunicação lembrou o centenário de nascimento de Dorival Caymmi e a homenagem ao compositor, músico, poeta da Bahia, vem numa narrativa muito valorosa para mim.

Meu pai, no final dos anos 80, comprou de um vendedor de rua dez LPs de uma coleção dos grandes compositores brasileiros. Tinha um LP de Ismael Silva, outro de Evaldo Gouveia, Jair Amorim, de Chico Buarque, de Lamartine Babo, quer dizer, do samba ao bolero tudo valia a pão. Um destes discos era uma coletânea de Dorival Caymmi. Eu estava com 12 anos e ouvi várias vezes aquele LP.

Tinha, por exemplo Maria Alcina cantado "João Valentão", os versos não me saem da mente: "João Valentão é durão, pra dar bofetão, não presta atenção e nem pensa na vida, a todos João intimida, faz coisas que até Deus duvida". Então lá estavam as músicas famosas daquele compositor que, à época, eu não sabia muito bem a história de vida, nem daquela família de músicos que ele construiu.

Mas uma coisa não esqueço: como aquelas músicas me educaram para a memória! Porque, com 12 anos, eu lia as informações no álbum sobre o ano de lançamento das músicas, a trajetória de Caymmi e ouvindo aquelas canções sobre histórias tipicamente brasileiras, mesmo passadas na Bahia, Rio de Janeiro, ou tendo o mar como cenário, aquela repetição era fundamental para um tipo de entendimento da cultura sem o saber do que isso significava, e aí o aspecto biográfico ficava mais ou menos em segundo plano, e o que valia era como aquelas canções mexiam comigo.

E a minha homenagem a Caymmi é exatamente esta: como podia alguém juntar narrativa, poesia, melodia com aquela tranquilidade? Contar histórias gostosas, tristes, trágicas, falar dessa nossa vida brasileira, sem ufanismos, ser bairrista de vez em quando, uma qualidade-defeito; mas, antes de tudo, não deixar sair da memória estas letras e melodias em que o mar era o pano de fundo, e o fundo dos sentimentos das coisas só podia ser encontrado no mar.

Além daquela sutileza política e humana da "Suíte dos pescadores": 'Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer; se Deus quiser quando eu voltar pro mar, um peixe bom, eu vou trazer; meus companheiros também vão voltar e a Deus do céu vamos agradecer". Este refrão, deveras conhecido no cancioneiro popular brasileiro, esconde a parte mais linda desta canção, quando na narrativa um dos barcos vira, o pescador não volta, e a letra diz: "Eu bem que disse a José, não vá José, não vá José, meu Deus! Com tempo desses não se sai! quem vai pro mar, quem vai pro mar não vem!"

Salve Caymmi!

Tiago Nascimento de Carvalho
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Brasiliense, professor de literatura do ensino médio e superior em Brasília, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília, e doutorando em Estudos Clássicos na Universidade de Coimbra em Portugal.
 

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