No ensino público, o “estudo” de uma língua estrangeira no currículo pode despertar pouca motivação ante a crença de que língua não se aprende na escola. O ensino bem planejado das línguas sob uma política pública afirmativa e focada em metas por níveis não tem sido a tônica. O descaso causa efeitos negativos na educação dos jovens, como vimos recentemente no chamado “apagão das línguas”. Chamados a estudar em universidades de outros países nossos alunos não “colaram grau”. Muitos não puderam viajar por não possuírem proficiência mínima para seguir um curso no exterior. Muitos outros que foram não puderam levar a bom termo a missão e tiveram de voltar. Para atender o país um grande programa remedial de línguas armado nas universidades foi posto em marcha. A frustração e o custo de medidas combativas (não estruturais, vejam bem!) tem sido altos.

Nas escolas particulares, principalmente em grandes centros, o clima pode ser bem outro. Os pais mais abastados e com níveis mais altos de escolaridade e informação apóiam a introdução de soluções envolvendo algum grau de ensino bilíngue para seus filhos e estão dispostos a pagar por isso desde o nível infantil. As soluções vão desde a oferta de ensino totalmente numa LE, passando por bilinguismo parcial (algumas horas por dia no contraturno, três vezes por semana) a aulas um tanto burocráticas de LE duas vezes por semana no bom estilo das escolas convencionais. Grandes prefeituras como a da Cidade de São Paulo possuem programas de ensino de línguas já a partir do Ensino Fundamental 1 (6 a 10 anos). Prefeituras de São Paulo e Paraná se unem para ofertar ensino de línguas para o público infantil no EF1, mesmo na ausência de parâmetros e políticas para essa disciplina ou componente curricular não obrigatória ainda por lei. A qualidade e o acerto nem sempre nos animam completamente nesses casos conforme nos informam pesquisas recentes nessa esfera pública. Estarão os pais, diretores e prefeitos buscando uma solução para a percepção generalizada de que línguas e familiaridade com recursos da computação vão fazer a diferença no futuro dos jovens e dos cidadãos de amanhã como já vemos hoje?

O campo das pesquisas no Ensino de Línguas na formação em pós-graduação nesse âmbito avança com letargia e ao sabor dos departamentos e faculdades de outros tempos quando bastava literatura e gramática para formar basicamente professores. Os programas de Letras na graduação precisam se atualizar e reorganizar seus currículos para o presente e o futuro. A carreira de professor no Ensino Básico não serve de atrativo a novos professores hoje metidos numa crise de profissão e não de talentos ou vocação. Os partidos políticos continuam a receber o MEC de dote com alto prejuízo para o futuro da educação nacional.  Os pais não querem esperar que seus filhos percam a vez, mesmo que o faça o país como um todo, não totalmente por vontade própria.

O ensino bilíngue é uma tendência que nos faz pensar sobre a direção que vai tomando o ensino de línguas nas escolas que podem ajustar suas políticas mais rapidamente com o nosso tempo. Estudar línguas não será apenas estudar sobre a língua, mas cada vez mais estudar o que é do mundo da escola também numa ou mais línguas que farão os estudantes de algum modo verdadeiramente bilíngues. Vamos nos preparar para isso?

José Carlos Paes de Almeida Filho
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O Professor José Carlos Paes de Almeida Filho é Doutor em Lingüística pela Georgetown University, GU, Estados Unidos. É Mestre em Educação em Língua Estrangeira pela Universidade de Manchester. Atualmente é Professor de Lingüística Aplicada/Teoria de Ensino de Línguas/Português Língua Estrangeira do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília - LET/IL - UnB.

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