Considerando o momento raro de rediscutir na ANPOLL (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Letras e Linguística) o sistema de classificação das áreas acadêmicas subordinadas à área de Letras e Linguística da CAPES, apresento aqui minha visão do assunto como contribuição ao debate buscando mudanças urgentes na nomenclatura e hierarquia entre áreas e subáreas da Linguagem. O Documento de Área dos Programas de Letras e Linguística já traz como grande missão dessa área a melhoria do ensino de língua(s) no Ensino Básico. Essa posição é acertada e premonitória, mas a vasta maioria dos programas no país não está voltada para o ensino de línguas nem para a formação de novos profissionais desse campo. Aplicar teorias linguísticas, ainda que adequadamente praticada, não seria mais hoje considerado suficiente como tratamento das áreas aplicadas que não podem mais ser confundidas como campos de aplicação de teorias exógenas.

(1) É preciso, em primeiro lugar, reconhecer a formação plural das frentes de ensino e pesquisa no âmbito da linguagem que se desenvolvem no país hoje, formação essa que historicamente contempla (a) a área clássica da Literatura à qual se refere pelo nome de Letras, (b) a área da Linguística que abrange os estudos da natureza e funcionamento da linguagem desde 1963, e (c) a área das disciplinas ditas aplicadas que envolvem questões de uso da linguagem em contextos sociais nas profissões da linguagem a que nos referimos como Linguística Aplicada, área essa ainda mal inserida na área etiquetada de Letras e Linguística. Os programas de pós-graduação materializam em proporção muito desigual essas três categorias de estudos da Linguagem (ver o artigo de ALMEIDA FILHO, 2007) e as disciplinas aplicadas não possuem hoje lugar nesse território epistemológico acordado nos anos 60 do século passado por ocasião da instalação das agências nacionais de pesquisa. A ciência aplicada nessa época só existia muito parcialmente enquanto aplicação de teoria linguística (geralmente ao ensino de línguas).

(2) Alerto para a urgência de se redefinir o nome da grande área para Linguagem, pura e simplesmente Linguagem, como se disséssemos Química ou Geografia. A designação Letras é fonte de constante confusão e evoca perfil curricular não atualizado. Se houver avanço no campo da redefinição da área isso reverterá para o bem de todos os programas e projetos de interesse estratégico para o país - tanto no âmbito da arte em linguagem, quanto no do conhecimento sobre o funcionamento da língua e ainda no da educação pela linguagem, da tradução e outras áreas aplicadas – carreando contribuição mais segura para a imensa demanda para a formação de recursos humanos para a educação básica no âmbito do ensino de língua (materna e outras). 

(3) Estamos convencidos de que acolher democraticamente essa pluralidade tripartite (Literatura, Linguística e Linguística Aplicada) promove o reequilíbrio das subáreas disciplinares com objetos e métodos distintos. Fica preservada a expansão crescente da pesquisa e do ensino em áreas de fronteira disciplinar entre as três subáreas ou disciplinas, e entre elas e outras áreas disciplinares exógenas garantindo os desígnios da transdisciplinaridade tão caros à ciência contemporânea.

(4) Acolher a grande área como a da Linguagem, sem qualquer outro qualificador ou aposto, resolve com força a identidade da área na CAPES e no CNPq, além de dar chance a que acomodemos três vertentes prolíficas da ciência no âmbito dos fenômenos que abarcam a linguagem verbal e paraverbal, as línguas materna e estrangeiras além da expressão artística e cultural nas línguas diversas.

Dados os nossos argumentos, justifica-se a ação da nomeação da grande área da CAPES e do CNPq como Área da Linguagem com três subáreas organizatórias do trabalho em disciplinas: a da Literatura, a da Linguística e a das Aplicadas, esta última incorporando o Ensino de Línguas e a Formação de Professores e Aprendizes, além da Tradução, já ofertada em programas consolidados de pós-graduação no país.

Referência

ALMEIDA FILHO, JCP O Fazer Atual da Linguística Aplicada no Brasil: Foco no Ensino de Línguas. In KLEINMAN, A.B. & CAVALCANTI, M.C Linguística Aplicada: Suas Faces e Interfaces. Campinas: Mercado de Letras, 2007.

José Carlos Paes de Almeida Filho
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O Professor José Carlos Paes de Almeida Filho é Doutor em Lingüística pela Georgetown University, GU, Estados Unidos. É Mestre em Educação em Língua Estrangeira pela Universidade de Manchester. Atualmente é Professor de Lingüística Aplicada/Teoria de Ensino de Línguas/Português Língua Estrangeira do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília - LET/IL - UnB.

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