A aquisição de uma nova língua é um fenômeno tão admirável quanto complexo e ocorre, em última instância, no cérebro dos aprendentes. Condições internas como afetividade, experiência anterior de aprendizagem de línguas e diferenças individuais se combinam com condições exteriores como as do ambiente de aquisição, incluindo-se aí o ensino produzido pelos professores, sua abordagem, método e recursos. Um desafio importante aos que querem compreender melhor os processos aquisicionais é entender tais ambientes geradores de aprendizagem fluente e duradoura.
Para ilustrar essa preocupação, trago uma contribuição dos autores ISTANCE & DUMONT intitulada em inglês Future Directions for Learning Environments in the 21st. Century, publicada em DUMONT, ISTANCE & BENAVIDES (Orgs.) The Nature of Learning. Using Research to Inspire Practice. Bruxelas- OECD-CERI, 2010, com tradução e notas por mim mesmo, J. Carlos P. Almeida Filho, Brasília, UnB, 2014. Vejamos, em síntese, os princípios centrais indicados por ISTANCE & DUMONT, com alguns acréscimos meus, para a instauração de ambientes potencialmente fortes de aprendizagem (ou aquisição) de uma nova língua nos termos de uma apropriação mais duradoura e fluente.

O ambiente propício à aquisição

  • reconhece os aprendentes (de línguas, no nosso caso) como seus principais participantes (agentes), incentivando por meio do trabalho diferenciado dos professores o engajamento dos aprendentes em atividades interativas e desenvolvendo neles uma compreensão da sua própria importância e ação aprendedora no processo;
  • está alicerçado na função social da aprendizagem (de uma nova língua-cultura) e ativamente incentiva modos bem organizados de aprendizagem colaborativa (transformando a classe em uma pequena comunidade solidária);
  • prevê profissionais de ensino antenados com as motivações dos aprendentes e com o papel chave do filtro afetivo na obtenção de uma atmosfera incentivadora de resultados discerníveis;
  • é sensível às diferenças individuais entre os aprendizes, inclusive seus conhecimentos prévios. Essas diferenças são geralmente indiciadas pelos seguintes fatores: idade, gênero, memória de trabalho, conhecimentos prévios, aptidão, filtro afetivo, atitude, personalidade, estilo cognitivo, memória, consciência, desejo, desabilidades na linguagem e interesse;
  • prevê programas que estimulem esforço de tipo produtivo de todos os aprendentes;
  • opera com clareza de direitos e expectativas (objetivos) empregando meios de avaliação consistentes com tais previsões de pontos de chegada sem descuidar do uso deliberado de retorno formativo que apoie a aprendizagem;
  • promove fortemente uma conexão horizontal entre as áreas do saber e os sujeitos, assim como busca vínculos com a comunidade e com o mundo lá fora.

A observação desses parâmetros destacados da obra dos autores europeus indica a direção que podemos tomar na garantia de condições favoráveis para que a aquisição de uma nova língua se dê na prática dos cursos que ofertamos nas escolas e universidades. O roteiro serve também para indicar novas leituras e observações da prática, ou ainda para a eleição de cursos a professores em formação continuada. Em um dado momento, essa agenda de circunstâncias favoráveis à aquisição poderá ser compartilhada, em linguagem adequada, claro, a aprendizes que precisam reconhecer a que monta a apropriação de uma nova língua para o uso ou comunicação. É o caminho da mágica de estar em uma nova língua e cultura no final das contas. Apreciem.
 

José Carlos Paes de Almeida Filho
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O Professor José Carlos Paes de Almeida Filho é Doutor em Lingüística pela Georgetown University, GU, Estados Unidos. É Mestre em Educação em Língua Estrangeira pela Universidade de Manchester. Atualmente é Professor de Lingüística Aplicada/Teoria de Ensino de Línguas/Português Língua Estrangeira do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília - LET/IL - UnB.

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