Logo depois de tomar parte da reunião comemorativa dos 25 anos da Associação dos Professores de Língua Inglesa do Estado de São Paulo (APLIESP), na Capital paulista, em junho de 2009, escrevi a primeira versão deste texto sobre o futuro da Associação e de suas homólogas estaduais. Considero a APLIESP e suas irmãs estaduais, surgidas como entidades associativas profissionais depois de 1985, uma história de sucesso no seu conjunto e acredito que só estamos no início de uma jornada muito mais longa e promissora. Aproveitei a ocasião do aniversário das JELIs, as Jornadas para o Ensino da Língua Inglesa, eventos anuais promovidos pela APLIESP, para estabelecer linhas de discussão do desenvolvimento futuro das APLIs. Aqui estão os pontos propostos:

1. Antes de mais nada princípios. Para uma associação não ser apenas ativista, esvaziada de reflexão criteriosa, ela precisa ser independente, reflexiva e programática. Ela pode buscar apoios nas embaixadas, nas grandes editoras de livros, nas associações internacionais da língua-alvo, nos órgãos de política para as línguas como o British Council e outros, mas somente deve fazê-lo quando tiver sua própria política e metas. As associações regionais brasileiras atendem as necessidades do Brasil que ensina e aprende línguas nas escolas regulares e não somente da fatia mais abastada das elites e escolas de línguas situadas nas grandes cidades do país. Um país se constrói sempre por inteiro e o contexto real de suas escolas é que abriga as observações e o conhecimento teórico que daí brota mediante pesquisas apropriadas. O Brasil não tem vocação para ser apenas usuário do conhecimento sobre os processos de ensinar e de aprender línguas produzido em outros países que vitalizam a nossa profissão. Nós podemos muito mais do que isso. Temos a determinação de que vamos irrigar com conhecimento útil, dialogador com a teoria que vem de fora, com a de dentro made in Brazil, com as ações desenvolvidas por nossas associações e isso nos dá identidade e dignidade.

2. os recursos de uma página eletrônica, de um blogue, dos eventos anuais da entidade e de uma revista como a pioneira Contexturas, da APLIESP, são todos essenciais e aproveitáveis com ótimo retorno. Eles vão seguir apoiando com sucesso as diretorias na implementação de seus programas. Precisamos tornar explícito nas novas diretorias que os eventos poderão ser ainda mais bem aproveitados quando repercutirem na página, nos blogues e na revista, as falas, pesquisas e posicionamentos sobre os temas planejados com perspectiva histórica, atendendo aos reclamos dos professores nas regiões e a uma política da Associação. As revistas, quando viáveis, devem se tornar digitais para alcançar o máximo de professores, associados ou não, no Brasil e no mundo. Quando atingirmos no futuro próximo a marca da confederação das associações, uma grande revista poderá ser mantida com o apoio das afiliadas com excelente ganho de qualidade e difusão certa entre os sócios das entidades estaduais. A produção da revista total ou parcialmente em inglês será, certamente, um passo adiante em nosso histórico de desenvolvimento profissional. A vantagem de manter as organizações estadualizadas é o ganho de capilaridade das associações para atender professores nas micro-regiões que doutra forma se manteriam à margem. O ganho da federalização está na escala e representatividade da entidade. Aliás, é importante salientar que não contamos com uma associação nacional de professores de língua inglesa e isso é desafio a ser respondido com urgência.

3. Ainda carecemos de ações pró-ativas como cartas e moções dirigidas a autoridades estabelecendo nossas posições político-profissionais e, principalmente, voltadas para a formação de terceiros agentes cruciais como diretores de escolas, jornalistas, pais de alunos, colegas de outras disciplinas do currículo, secretários de educação, ministros, parlamentares interessados nos nossos assuntos. Essas iniciativas poderiam crescer no interior das gestões futuras das entidades. Depois de dirigidas à Secretaria da Educação e do Ministério da Educação - MEC, as moções poderiam ganhar as páginas dos outros meios de que dispomos.

4. Grupos-tarefa e comissões de especialistas, líderes e professores destacados por sua qualidade de ensino em exercício nas variadas esferas de ensino poderão estabelecer propostas/políticas alternativas que expressem nosso melhor juízo profissional e científico. Nos anos 80 conseguimos montar uma Comissão trabalhando dentro da SEED-SP para escrever um documento-guia para o ensino de línguas no Estado. Os resultados apareceram como um documento oficial entregue à SEED e publicado na Revista Trabalhos em Linguística Aplicada da UNICAMP, vol. 17, 1987.

5. Um sistema de metas de proficiência expressas em faixas comunicacionais precisa ser proposto para os diversos níveis e modalidades de escolas: Pré-escola, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Licenciaturas em Letras. As Secretarias, o MEC e mesmo o INEP são lentos e, em geral, despreparados para enfrentar essas exigências que evoluem rápido. É possível que consigamos implementar um Exame APLIESP ou um exame nacional de proficiência profissional e de competências de trabalho no futuro com grande poder de indução de políticas de Estado e de instituições isoladas também. Não é mais possível esperar que isso aconteça sem a nossa inserção.

6. Faz falta um guia de boas práticas de ensino e de aprendizagem (em publicações ou em página eletrônica especial com esse propósito) para professores e alunos separadamente.

7. Relacionada ao item (5) anterior é a ideia de compormos um acervo para leituras recomendáveis, em linguagem acessível, para o professor se fortalecer na compreensão teórica e nos procedimentos práticos da reflexão formadora. Não há no Brasil uma obra abrangente da teoria sobre os processos de aprender e de ensinar línguas disponível e num formato portátil para a formação de profissionais do presente com olho no futuro.

8. A Apliesp e qualquer das suas congêneres cumpriria mais um papel relevante de balizadora da qualidade que desejamos para o ensino de línguas no país se estabelecesse prêmios e incentivos anuais para publicações e atuações exemplares de professores de Inglês atuando no Brasil.

9. A Associação precisa chamar os presidentes de APLIs do Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste para uma reunião de trabalho visando acordar um sistema de consultas simplificado entre presidentes, lançar um encontro das APLIs em futuro próximo com o propósito de estabelecer no ano seguinte uma Federação Brasileira de Associações de Professores de Línguas (FEBRALÍNGUAS) com eventos conjuntos a cada 3 anos.

Essas são algumas das idéias que me ocorreram como as mais urgentes para dinamizar ainda mais o papel de liderança e formador da APLIESP e demais associações de professores de línguas no futuro em que já nos projetamos. Em frente, professores!

José Carlos Paes de Almeida Filho
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O Professor José Carlos Paes de Almeida Filho é Doutor em Lingüística pela Georgetown University, GU, Estados Unidos. É Mestre em Educação em Língua Estrangeira pela Universidade de Manchester. Atualmente é Professor de Lingüística Aplicada/Teoria de Ensino de Línguas/Português Língua Estrangeira do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília - LET/IL - UnB.

Comentários  

# Rita de Cassia Tardi 31-07-2015 14:24
Precisamos que os professores se conscientizem de que a reflexão sobre a prática é fundamental. Para tal há que acontecer mais capacitações de professores pelo Brasil. Um abraço, Rita :roll:
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