Por força da sua profissão, relativamente poucos professores de línguas profissionais são formados em universidades quando ingressam nas licenciaturas no âmbito da Linguagem conhecidas tradicionalmente como de Letras. Os professores contam com um suporte formativo que não se resume à formação inicial, aquela que os certificam para ensinar línguas em escolas. Há ainda muitas oportunidades de continuidade dessa formação vida afora. Agora, os aprendentes que chegam para o cuidado profissional desses mestres certificados ou não invarialmente não contam com o suporte de uma formação sistemática e informada. Não há razão alguma para isso e o processo de aprendizagem dos que se candidatam a adquirir um novo idioma pode, sim, ser modificado para melhor. Alunos podem aprender a aprender mais e melhor.

Como fazer isso? Não há livros e programas que os apoie. Enquanto não dispomos de cursos e materiais dessa natureza, vejamos um roteiro para guiar a formação desses importantes agentes do fazer nova língua se instalar com força de comunicação.

Os aprendizes vêm para a aprendizagem com sua herança genética, com as tradições de aprender línguas de sua cultura e sob certos traços de caráter nacional. Eles precisam se perguntar se têm alguma percepção das suas condições. Precisam buscar compreender melhor o que já trazem como características e o que precisam fazer para obter os melhores resultados. Por exemplo, conhecem algumas de suas diferenças individuais e o perfil do seu conhecimento prévio? É importante reconhecer que a aprendizagem de nova língua tem natureza específica. O aprendiz está preparado a assumir a sua parte da responsabilidade de aprender a nova língua? Os professores podem ajudar muito, mas a aprendizagem ou aquisição do novo idioma tem de ocorrer dentro do aprendente em última instância. Ninguém pode fazer isso por quem aprende. Nem o professor.

A natureza da aquisição é tanto individual (psicológica, afetiva) quanto social (aprendemos melhor interagindo com outros). Quando interagimos, buscamos sempre o máximo de significação no uso crescente do novo idioma. Podemos dizer que aprendemos melhor quando nos organizamos em pequenas “comunidades” (classes funcionando solidariamente) de aprendentes que colaboram entre si para obter máximo efeito do que experienciam.

A parte afetiva é muito importante no processo de aquisição e o aprendiz precisa atuar para manter o bom equilíbrio dela ao longo do tempo em que atua para instalar em si mesmo uma competência de uso nessa nova língua. Motivações variadas, baixa ansiedade, autoestima, pouca pressão negativa de pares que desvalorizam a nova língua, capacidade de manter o esforço mesmo diante de sinais de pouco desenvolvimento ou de que o que pensávamos estar aprendido parece, na verdade, não estar disponível. O aluno não deve deixar que bloqueios se instalem e, assim, manter certa leveza do processo.

O professor ou professora fará o máximo que puder para apoiar o esforço de aprendizagem da língua escolhida. Por exemplo, ele produziu e/ou selecionou materiais e atividades especiais que deverão interessar e envolver os que aprendem. Os aprendentes devem deixar-se ligar às ações do professor, dos colegas, aos materiais e atividades do curso, procurar maneiras de envolver seu professor e colegas em uma agradável e relevante interação. Precisam trazer material que julguem ser capaz de intensificar a ação na sala de aula, assim como cuidar do bem-estar dos participantes na sua situação de aprendizagem. O aprendiz deve oferecer incentivo quando julgar que a sua intervenção vai contribuir para melhorar as chances que ele ou ela mesmo ou seus colegas têm de se apropriar dessa nova língua.

Para aprender outra língua, as pessoas devem desenvolver sensibilidade específica para tal, aprendendo o ritmo típico dela e o movimento sonoro dos enunciados. Isso significa ter de cultivar uma capacidade de pensar e de expressar-se idiomaticamente na nova língua. Será conveniente também tentar apanhar o sentido genérico das frases e parágrafos inteiros sem ter de traduzir palavra por palavra. É mais produtivo fazer atividades inteiras na própria língua-alvo como, por exemplo, entabular uma conversa ou discussão depois de ter ouvido e/ou lido um texto, de ter tomado notas enquanto ouvia um trecho de entrevista ou um programa de tv.

Não há somente um modo de aprender. É preciso estar aberto à variedade quando se está aprendendo a nova língua. Por exemplo, há especialistas que ainda acreditam que se deve aprender gramática primeiro. Primeiro e basicamente gramática. Atenta e explicitamente. Ao redor dos pontos de gramática, eles criam diálogos com os quais você pode “praticar” a língua. Aprender dessa maneira implica seguir uma sequência de pontos previamente selecionados e disfarçados em “situações”. Mais recentemente, vários outros especialistas têm indicado razões para se conceber o aprender diferentemente. Em vez de se voltarem para pontos gramaticais, esses autores propõem tópicos que são relevantes à vida, textos que fazem alguém tomar posições, tarefas que prendem a atenção ao nos fazer compreender e resolver questões. Por exemplo, um curso de língua pode não ser sobre língua, na verdade, mas abordar alguma outra coisa (um tema para estudo, um filme, o aprendizado de uma técnica, o desenvolvimento de tópicos de uma disciplina etc.) e só secundariamente ensinar a própria língua.

Os que estão a aprender devem honestamente vivenciar mais do que uma única maneira de aprender e observar os procedimentos e seus resultados. Podem falar com o seu professor ou com sua professora sobre as suas observações.

Os aprendentes manterão o esforço continuado por aprender perseguindo seus objetivos conhecidos e alinhando-os, se possível, com os da professora ou do professor. Não deixarão passar qualquer chance de interagir, testar estratégias e hipóteses, pedir ajuda, auxiliar, ensaiar mentalmente e, finalmente, pensar no que se está fazendo. A consciência do que fazemos ajuda a melhorar o processo.

Todos podem divertir-se, sempre que possível, enquanto estão a trabalhar duro para ganhar comando da nova língua! Vamos dar essa oportunidade aos nossos alunos? E eles para seus filhos no futuro?

José Carlos Paes de Almeida Filho
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O Professor José Carlos Paes de Almeida Filho é Doutor em Lingüística pela Georgetown University, GU, Estados Unidos. É Mestre em Educação em Língua Estrangeira pela Universidade de Manchester. Atualmente é Professor de Lingüística Aplicada/Teoria de Ensino de Línguas/Português Língua Estrangeira do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília - LET/IL - UnB.

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