Em novembro completam-se 50 anos que Cecília Meireles, grande educadora, nos deixou. Não, eu não errei a profissão da moça. Embora seja conhecida principalmente como jornalista e poeta, Cecília Meireles, professora de formação, passou grande parte de sua vida pensando a educação. Mas o gancho do seu aniversário de morte foi apenas uma grande coincidência, pois só descobri esta informação quando o texto já estava praticamente terminado. O que me lembrou da Cecília foi a Valesca Popozuda.

Eita que agora a casa cai! Comparar a Popozuda com o Olavo de Carvalho ainda vai, mas com a Cecília Meireles?!

Como diz a Leila Ribeiro: calma, Polegarzinho! Não estou querendo comparar ninguém. Até porque, cada uma é única no que se propôs a fazer. Lembrei da Cecília devido aos seus belos escritos sobre a educação e por eles se encaixarem perfeitamente na polêmica sobre a grande pensadora contemporânea (estou me referindo à Valesca, assim mesmo, sem aspas!)..

Cecília fez parte do movimento escolanovista, que teve grande impacto na educação na primeira metade do século XX. No entanto, apesar das mudanças que a educação passou deste então, sua base tradicional e conservadora continuou intocada, como bem sabemos. Mas para ela, a grande vitória do movimento, foi permitir que os professores “modernos” saíssem de seus limbos, respirassem ar puro novamente e voltassem a assumir um “formidável compromisso com a vida, a nacionalidade e as criaturas”.

A renovação dos métodos de ensino e o aproveitamento das experiências cotidianas dos alunos para fins educacionais foi uma bandeira largamente defendida pela Escola Nova (e também por Paulo Freire, vale lembrar). Segundo eles, seria fundamental que os educadores compreendessem que estão lidando com indivíduos que não apenas estão no mundo, mas estão com o mundo. Ou seja, o aluno é um ser composto por seu meio, por seu contatos e por suas relações.

Nesta mesma linha, Cecília cita em uma de suas crônicas o caso do professor Clodoveu Doliveira: um professor de português que acreditava que “quem sabe falar, sabe conjugar verbos” e, portanto, partia apenas da fala da criança, descartando toda a teoria clássica da alfabetização. Logo, tanto para Freire quando para Cecília, para funcionar, a aprendizagem precisaria partir de, e se tornar um -conhecimento significativo para os estudantes.

Nada a ver com a polêmica da prova de filosofia, com a questão da música Beijinho no Ombro , né?!

Na lógica do conhecimento significativo não há certo ou errado, bom ou ruim. O que é significativo pra você, pode não ser pra mim. Ui, até rimou!

Mas, e o conteúdo obrigatório? E o vestibular?

Bom, a prova tinha questões “tradicionais” de filosofia, não? Então “keep calm e deixa de recalque”.

No entanto, a linda da Cecília vai além. Sobre conteúdo obrigatório diz: “A preocupação de instruir, que até bem pouco dominava a de educar (...) contribuiu enormemente para que a escola se reduzisse quase à desgraçada missão de alfabetizar, despejando, anualmente, no mundo, algumas centenas de crianças, cujas possibilidades estavam limitadas à quase inutilidade do saber ler e escrever. (…) Fornecer ou assimilar uma quantidade maior ou menor de conhecimentos é coisa, na maioria dos casos, completamente inútil, e, muitas vezes, até prejudicial”.

Os alunos já mudaram e, como percebeu Cecília em 1930, a responsabilidade de toda reforma educacional descansa sobre os ombros dos educadores. Logo, se a criança é o futuro cidadão e a escola, o vestíbulo da vida, é necessária “uma formação móvel, progressiva, sempre atual, constante, que faça de cada professor um indivíduo diariamente renovado, alerta aos acontecimentos e ao tempo”.

Logo, o professor de filosofia, tenho certeza, ganharia um beijinho da grande pensadora menos contemporânea. Pois, como afirmou categoricamente em sua crônica Educação Estética da Infância, as mudanças na educação, muito mais do que desejáveis, são inevitáveis, uma vez que “é a transformação natural do mundo que se opera, não obstante muita má vontade e muita ignorância, que, decerto, perdurarão, ainda, excepcionalmente”.

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