A educação tradicional tem encontrado nas últimas décadas uma geração de alunos que não mais se satisfaz com a combinação “saliva e giz”. Essa expressão da linguagem popular se refere aos recursos utilizados por essa “ideologia” educacional que possui o foco no professor e a aula restrita à sala, ao livro e ao quadro. Os jovens de hoje sentem a necessidade de um “algo a mais” no processo educacional. Essa nova geração de estudantes possui uma demanda de conhecimento que a maioria dos professores não está pronta para suprir.

As novas tecnologias, e em especial a internet, deram origem a um grupo de indivíduos acostumados à velocidade, em contraste com as gerações anteriores que possuíam a cultura da “contemplação”.

A grande atração da internet atualmente são as redes sociais, e elas já fazem parte do cotidiano de mais de 90% dos brasileiros conectados à internet, cada usuário gastando uma média de 4,7 horas por mês conectado nestes sites. Veja o infográfico.

Ao mesmo tempo temos uma série de pesquisas que mostram um alto nível de insatisfação dos alunos com a escola ou, na melhor das hipóteses, temos aquelas que apontam para o fato de que os alunos gostam da escola porque lá encontram os amigos e ficam sabendo das novidades... mas odeiam estudar.

Não é difícil perceber que os estudantes estarem conectados às redes on-line em tempo integral, por vontade própria, é por si só, muito mais do que a escola tem conseguido fazer.

Mas é claro: a internet é um brinquedo e educação é coisa séria - dirão os mais céticos. No entanto, a escola precisa aprender com as redes sociais a lição de que o lúdico é fundamental para a aprendizagem, não importa a etapa escolar. Além disso, em geral, a brincadeira que mais gostamos na infância é a de “faz de conta”. Ora, não é este o mais puro apelo da internet? Ser quem quiser, quando quiser, onde quiser. Só que a escola de hoje não tem deixado espaço para imaginação e, nesse sentido, um mundo de memes, onde você pode ser um suricato seboso, o Willy Wonka ou a presidente do Brasil, tem sim muito a ensinar.

Outra lição que as redes sociais podem dar à escola é que nelas todo conteúdo é apresentado publicamente e sem uma avaliação tradicional. E o interessante é que, mesmo sem esta obrigatoriedade, os indivíduos acabam por se avaliar e se regular mutuamente: qualquer um com um perfil no facebook, tenha 50 ou 5.000 amigos, já se deparou, por exemplo, com a “polícia da etiqueta” na rede: não curta o próprio status, não mande milhares de convites para jogos, não marque todos os seus amigos em uma foto de propaganda, etc., etc., etc.

As redes sociais são pensadas com o propósito de produção e compartilhamento de conhecimentos, e não a simples absorção destes, e foi esta característica que possibilitou, por exemplo, o surgimento de uma nova geração: a Geração C.

Logo, a hieraquia, a verticalidade e o comodismo em que é pautada a educação tradicional são incompatíveis com a estrutura das novas mídias e, consequentemente, com o que esperam os estudantes ao irem à escola.

O que quero apontar, portanto, é que a escola e os professores devem compreender a lógica das redes on-line e dar mais liberdade ao aluno. Pois, apesar do discurso recorrente de liberdade - onde em sala de aula se costuma afirmar, por exemplo, que “não existem perguntas idiotas” - , qualquer fala ou ação do aluno, fora do que a escola considera correto, é fortemente reprimida. Não é se espantar que a escola tenha se tornado o desagradável lugar “onde tenho de ser o que eles querem” e as redes on-line, o belo lugar “onde sou eu mesmo”.

Já passou da hora de a escola (e a sociedade em geral) parar de empenhar esforços no intuito de tirar os jovens da frente do computador e passar a encorajá-los a canalizar esta energia para uma aprendizagem que faça sentido para eles. As mídias tradicionais (televisões, jornais, rádios, etc.), assim como a educação bancária, sempre tiveram como objetivo acomodar a juventude em um individualismo consumidor, mas a ideologia geral das novas mídias se encontra no extremo oposto, e cabe a nós professores repensarmos a escola e deixarmos, por meio da educação, os jovens livres para serem tudo que eles querem ser.

Mariana Marlière Létti
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Viciada em internet, professora de sociologia, apaixonada por animais, louca por livros e por música. Acho que isto me resume bem. Mas também tenho mestrado em antropologia social e, atualmente, curso o doutorado em educação na Universidade de Brasília.

 

Comentários  

+1 # Paula Ugalde 27-02-2014 00:18
Disse muito! É bem por aí! Ainda acredito que os professores 'ou' estão ou vão se atualizar e mudar, via conscientização do que seja o professorar XXI ou serão mudados pelos alunos. ;-)
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# Mariana Létti 09-03-2014 18:56
Muito obrigada por ler o texto e compartilhar conosco, Paula.
É isso aí: ou mudamos ou mudam a gente! =)
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