Tenho tido a impressão nesses últimos tempos de redes digitais que sou mais um personagem do livro Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago. Vocês já leram ou viram o filme? É uma excelente adaptação!

É um romance que foi traduzido para dezenas de línguas e conta sobre uma epidemia de cegueira que atingiu uma cidade. A "cegueira branca" - assim denominada porque as pessoas atingidas apenas passavam a ver uma superfície leitosa - é uma doença que surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena, trancafiados, amontoados em hospícios, lugares insalubres e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar, então, as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. E tudo vira um verdadeiro caos e guerra. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico, que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.

No livro, José Saramago não faz a distinção de personagens pelos seus nomes, mas sim por suas características e particularidades. Isso faz com que possamos nos identificar em vários personagens. O autor ainda disse que se tratava de um livro brutal, violento e que seu desejo era que os leitores pudessem sofrer o tanto como ele tinha sofrido ao escrevê-lo. Saramago dizia que sua tentativa com a escrita desse livro era dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.

Bom, Saramago, parece que esse reconhecimento chegou, mas infelizmente não como um ato reflexivo, mas sim destrutivo.

CULTURA DE ÓDIO

Nos últimos tempos o mundo tem enfrentado uma cultura do ódio que tem tido disseminação inigualável com as redes sociais. Essa cultura do ódio tem sido refletida em inúmeros posts, tuítes, páginas exclusivamente destinada para ofensas, comentários raivosos, dentre outras ações digitais. No Brasil, especialmente depois das eleições de 2014, não há mais nada que você possa colocar assim..sem compromisso, apenas por diversão nas redes sociais que sempre haverá alguém que irá interpretar a sua própria maneira e te mandar aquele textão cheio de raiva/mágoa/ofensa no comentário. Muitas vezes chamando para briga mesmo: "quero ver quem votou em partido X/Y dizer alguma coisa agora".

Vale ressaltar aqui que cultura do ódio não se relaciona apenas ao fato de discordar de outra pessoa. Há uma diferença enorme! A habilidade social de se expor e enfrentar o outro que não concorda com suas ideias sempre foi uma ação delicada. Exige coragem, afeto, clareza, sutileza e diplomacia de todas as partes envolvidas no diálogo. Entretanto, com a internet, falar o que pensa ficou muito mais fácil, acessível e com alto poder de difusão. Não estar cara a cara com seu interlocutor facilitou a exposição de ideias sem o famoso "filtro social", este que regula os diálogos e, logo, evita conflitos mais acalorados. E, por isso, muitas pessoas confundem liberdade de expressão com declaração de ódio na internet.

A situação ficou tão séria e absurda que até candidatos à presidência da república, na época das eleições, fizeram discursos incentivando o ódio da população para algumas questões das minorias, por exemplo. Esses discursos aconteciam simultaneamente em debates na TV e em posts nas redes sociais. Isso fez com que o Ministério da Justiça realizasse uma campanha para explicar a diferença entre discurso de ódio (que é crime!) e o ato da liberdade de expressão:

"Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões e ideias. Entretanto, o exercício dessa liberdade não deve afrontar o direito alheio, como a honra e a dignidade de uma pessoa ou determinado grupo. O discurso do ódio é uma manifestação preconceituosa contra minorias étnicas, sociais, religiosas e culturais, que os com outros valores assegurados pela Constituição, como a dignidade da pessoa humana. O nosso limite é respeitar o direito do outro."

De fato, Saramago, nós seres humanos não somos bons e estamos a cada dia conseguindo demonstrar nossa maldade gratuita em plena rede conectada: a internet.


HUMANIZA REDES

Passada a época de eleições, comecei a perceber que o problema da cultura do ódio não era exclusivo do Brasil. As questões da dualidade, da polaridade das relações humanas estava em um patamar mundial. Esse TEDx da Ash Beckham explica bem sobre essa questão da polaridade do mundo: ou você é a favor ou contra, vermelho ou azul, homofóbico ou ~heterofóbico~, ou você é minha amiga ou você não é, tudo depende apenas se você concorda ou não comigo. Caso não concorde, automaticamente você vai parar na lista do caderninho negro do coleguinha. E não escapa ninguém, viu! Aqui no Brasil, até o pobre Paulo Freire, morto há 17 anos e mega defensor da liberdade por meio da educação, também não foi poupado de ser linchado digitalmente.

Não se considera mais o ser humano como um enorme espectro de complexidades. Ou é ou não é. Fim.

Com tudo isso, me inquietava porque grandes instituições de internet e governos não estivam preocupados em tentar organizar esse caos que está instalado nas redes, pois não se trata ~apenas~ de internet, estamos falando de uma sociedade em rede! Não é ~apenas~ brincadeira! São ações que, inclusive, já deixaram de ser apenas vitrine de ódio virtual. A fronteira online e offline já foi quebrada há tempos!

Foi quando, recentemente, o governo federal brasileiro lançou a campanha Humaniza Redes, que além do papel de ouvidoria e espaço para denúncias desse tipo de ato, também é um espaço de educação. É uma iniciativa interministerial (Educação, Justiça, Igualdade Racial, Direito das Mulheres), apoiada pelas três grandes potências wébicas (Google, Facebook e Twitter), além de vários outros apoios importantíssimos como o do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) e da Safernet, que tem anos de trabalho sobre essa mesma causa.

Mas por incrível que pareça, essa ideia de deixar a rede mais humanizada e com menos ódio não agradou. A revolta das pessoas com o governo (e com razão!) está muito mais arraigada na cultura do ódio que se imagina. Não importa o que aconteça, não importa se a proposta do projeto é de esforços de muitos setores, de múltiplas agências, de governo e iniciativas não governamentais. Nada importa. Apenas o ódio. E desqualificar qualquer ação governamental vira propósito de vida. Não importa a finalidade. Apenas o ódio.

E o humorista Danilo Gentili, percebendo que as pessoas do grupo de "ode ao ódio" precisavam ser representadas nessa iniciativa, resolveu criar o Desumaniza Redes, com o propósito de apoiar as pessoas a serem "desprezível e desumano" na web, de acordo com as palavras do próprio apresentador. Bom, parece que ele representou bem as pessoas, pois o número de seguidores e curtidas do perfil dessa campanha de desumanização das redes já ultrapassa o da outra, que deseja uma rede de paz. Fiquei na dúvida se as pessoas realmente acham que ser desumano é legal ou se concorrer a um PlayStation 4, prometido pelo humorista criador da rede, os fez achar que ser desumano é só mais uma piada na internet.


E A EDUCAÇÃO?

Será que estamos mesmo vivendo dias de personagens do Ensaio sobre a Cegueira que ficaram epidemicamente cegos? Será que não estamos mesmo mais conseguindo separar o que é brincadeira, o que é liberdade de expressão do que é bullying, preconceito e ódio? Cadê a aquela galera do "novo começo de era" que o Lulu Santos falou que seria "fina, elegante e sincera"?

 

Numa conversa de twitter, um amigo me disse que estamos vivendo "um paradoxo: evoluímos à velocidade da luz, nas tecnologias, mas regredimos à idade das trevas nas relações humanas". Logo em seguida, apareceu um texto na minha timeline do Pierry Levy, era a sua mais recente entrevista em língua portuguesa. Nela, ele foi questionado sobre essa cultura do ódio nas redes com esse mesmo olhar: evoluímos ou involuímos? Ele respondeu assim:

"Certo é que nunca teremos uma humanidade perfeita. Em contrapartida, o usuário da internet não é um intelectual menor de idade. Ele tem em mãos um grande poder, mas tem também grandes responsabilidades a cumprir. O problema, sobretudo para os professores, consiste em educar esses utilizadores da internet. É preciso ensinar a estabelecer prioridades, a atrair a atenção, a fazer uma escolha justa e uma análise crítica das fontes às quais nos conectamos. Temos de prestar atenção na cultura daqueles com quem nos conectamos e precisamos aprender a identificar as narrativas feitas e as suas contradições. Essa é a nova “digital literacy” (alfabetização digital): tornar-se responsável."

Em outras palavras, tudo se resume a EDUCAÇÃO. Podem espernear, podem dizer que falar de educação é blah!, mas não tem jeito, é essa mocinha que manja dos paranauê da sociedade, galeres!

Por isso, falar de cultura digital na educação não se resume a falar de apps, de como o professor vai usar a internet nas suas disciplinas. É também...mas, PRINCIPALMENTE, é falar sobre essa nova forma de cidadania, dessa sociedade em rede, em como as nossas responsabilidades não são diferentes do offline no online, em como a inteligência coletiva funciona, como ela se fortalece, que nem tudo que está na web é verdade, em como não cair em cilada na internet, que o google tem as respostas, mas nós que temos que saber fazer as perguntas certas e sintentizar as ideias de maneira crítica, entender que a informação pode ser manipulada: seja em áudio, texto, imagem ou vídeo. Falar de cultura digital na educação é compreender que a escola está muito além dos muros, que as ações de protagonismo, pensamento crítico, de criatividade, resolução de problemas e de atitude de fazedor (maker) precisam ser estimuladas dentro de um espaço de oportunidade para praticá-las diariamente.

"Continuamos seres humanos encarnados e mortais, felizes e infelizes. A condição humana fundamental não muda. O que muda é a nossa cultura material e intelectual.(...) A nossa capacidade de análise de situações complexas a partir de massas de dados vão, em breve, transformar a nossa relação com o meio ambiente biológico e social. Graças à quantidade de dados disponíveis e ao crescimento de nosso poder de cálculo, vamos provavelmente experimentar no século XXI uma revolução das ciências humanas comparável à revolução da ciências naturais no século XVII. Nós somos sempre os mesmos, mas mudamos." Pierry Levy

A revolução tecnológica e a internet, de fato, nos mudou, mas continuamos essencialmente humanos e é essa parte que a escola precisa entender que é da sua ceara agora: mediar relações humanas para que quanto mais high tech nós estejamos, possamos também ficar mais high touch um com os outros.

“Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.” (José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira)

Leila Ribeiro
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Acordo usando o Twitter, passo o dia aprendendo com a internet, apaixonada por relações das pessoas na web e da apropriação do conhecimento dos professores na era digital. Ah! Sou também doutoranda em Ciência da Informação, mestre em Linguística Aplicada, educadora da vida, jornalista e publicitária leiga por pura paixão.

 

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