Sob o disfarce de uma brincadeira “sem graça” (NOVA ESCOLA, 2008) e sem data exata de nascimento, o bullying já consiste prática antiga, recebendo esse nome somente na contemporaneidade, “antes do século XXI” (FANTE, 2005).

Professores de diversas áreas são capazes de diagnosticar, na interação de seus estudantes, situações em que haja esse tipo de violência (intra/extra) escolar, sendo sua tarefa não apenas a diagnose, mas também o auxílio naquilo que lhe é cabível.

Para Fante (2005), essa violência pode ser evidenciada por comportamentos antissociais bastante agressivos, caracterizados por serem constantes e com intencionalidade bem definida: agredir sem qualquer razão aparente.

É Freire (1970) que faz excelente leitura da violência no plano escolar. Para ele, ela é capaz de coisificar o sujeito, fazendo com que, no processo de ensino e de aprendizagem, sejam bloqueadas as atividades criativas e interacionais, impedindo esse estudante de “ser mais”, segundo suas próprias palavras.

Segundo Catini (2004), vários fatores podem influenciar o aparecimento do bullying, a saber: elementos relacionados à personalidade, autoestima reduzida, vitimização dentro e fora da escola, falta de motivação e dificuldade nas relações sociais.

A proposta dessa discussão é analisar o bullying de uma perspectiva diferente. Como a vítima pode tentar minimizar esse assédio moral que tanto a incomoda?

Ao estudar competência interacional, percebi que a problemática bullying pode estar inserida na ausência de competência interacional não só por parte do agressor, mas, principalmente, daquele que é vitimizado.

Ao criticar o conceito de competência proposto por Chomsky, Hymes (1967) situa a competência comunicativa como aquela que analisa o que é possível fazer com a linguagem, o que é viável, o que é apropriado e o que é realmente feito (GUMPERZ, 1997).

Transcendendo esse conceito, a competência interacional relaciona-se com os recursos linguísticos e não linguísticos que são empregados mútua e reciprocamente pelos interagentes, co-construídos no curso da interação, sendo não somente aquilo que o interlocutor conhece, mas aquilo que ele faz (YOUNG, 2008).

Essa competência (interacional) é capaz de agir de forma reguladora, considerada norma implícita, que faz parte das realidades sociais dos interlocutores (MORATTO, 2008).

Sendo assim, proponho reflexão, do ponto de vista interacional, acerca do bullying. Tanto a vítima quanto o agressor são, muitas vezes, incompetentes do ponto de vista interacional. Por razões próprias, não desejam interagir de forma simétrica, um assume o papel de ofensor e o outro de ofendido, podendo este último reagir de diversas formas.

Além dessa assimetria, a vítima por assumir postura frágil, optar em não interagir com ninguém, não encarar os colegas nos olhos, isto é, ser reservado em todos os momentos, pode abrir precedentes para ser alvo de chacotas, apelidos e diversos tipos de agressões.

Com ajuda especializada, esse estudante deve optar por ações que minimizem essa leitura “de alguém frágil e acuado” por parte do agressor.

Procurar interagir com algumas pessoas do grupo, ser cordial com as pessoas, compreender as necessidades dos outros sem fechar-se apenas em seu mundo, podem ser algumas estratégias capazes de reduzir os riscos de sofrer esse tipo de assédio, responsável por emperrar não apenas a aprendizagem, mas principalmente as relações presentes e futuras.


Referências

CATINI, N. Problematizando o bullying para a realidade brasileira. Curso de Pós-Graduação em Psicologia (Tese de Doutorado). Campinas: PUC, 2004.

FANTE, C. Fenômeno Bullying. Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus, 2005.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 36 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

GUMPERZ, J. J. Communicative Competence. In: COUPLAND, NIKOLAS & JAWORSKI (Eds.). Sociolinguistics: a reader and coursebook. England: Palgrave, 1997.

MORATO, E. M. Da noção de competência no campo da linguística. In: SIGNORINI, I. & RAJAGOPALAN, K. (Orgs). Situar a linguagem. São Paulo: Parábola, 2008.

NOVA ESCOLA (2008). Bullying: é preciso levar a sério ao primeiro sinal. http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/bullying-preciso-levar-serio-431385.shtml?page=1

YOUNG, R. Interactional Competence. In: Language and Interaction: an advanced resource book. London: Routledge, 2008.

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