Ao lermos manuais de linguística e de redação em geral, não é incomum deparamos com a analogia, propiciada pela tradução latim-português, entre texto e tecido [textum]. Dela há todo um desdobramento de que o tecido compõe tapetes, roupas e é responsável pela conexão, pois esses produtos industrializados não podem ter pontos soltos, é necessário haver entrelaçamento. Trago, inicialmente, três inquietações para refletirmos antes de seguir com nosso textum:

(1) De que espécie de “tecido” exatamente esses manuais vêm tratando?
(2) Como esses pontos são, então, entrelaçados a fim de formarmos essa trama?
(3) Quem são os verdadeiros tecelões desse produto que é o texto?

Por pertencermos a uma sociedade grafocêntrica, estamos, desde o primeiro acesso ao cenário escolar, inseridos em tarefas voltadas para a escrita. Essa cultura se instala, segundo Gnerre (2012, p. 42), sobretudo por duas visões: a evolucionista (há estágios lineares na aquisição da escrita, desde os símbolos pictográficos até a abstração da escrita alfabética) e a mítica (pressupõe-se ter adquirido certo avanço sociocultural e cognitivo aqueles que adquiriram a escrita). Assim, desde muito cedo somos estimulados a escrever (e mais tarde a produzir textos), mas sem compreender muito bem a real demanda de tal ação.

Em séries seguintes (tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio), podemos perceber, em diversas práticas escolares, o ensino do texto desviado da aprendizagem de gramática normativa, mas tão somente um pretexto para a introdução do tópico gramatical. É como se o texto assumisse uma pseudofunção de atribuir mais sentido à prescrição gramatical, mas que serve exclusivamente para o reforço metalinguístico (classificação morfológica – as dez classes gramaticais – e/ou morfossintática – funções dos termos em períodos simples e compostos). E curiosamente o professor, com bastante indignação, ainda desabafa: “Não entendo por que esses alunos detestam ler! Escrever então, nem se fala...”.

Antunes (2007), de modo brilhante, nos chama a atenção para esse panorama no cenário do ensino e da aprendizagem. Para tanto, a autora exemplifica duas atividades: a primeira consiste em uma análise gramatical aquém do texto (um poema – rico em elementos textuais – que serve como coleção de palavras para classificação do substantivo em comum, composto, primitivo ou derivado) e a segunda apresenta uma análise voltada para a língua em funcionamento (em uso), explorando, por exemplo, a função dos substantivos como agentes fundamentais no processo de referenciação.

A segunda concepção de ensino, que é a que nos interessa, é fruto da virada pragmática e cognitivista (bendita seja!). Como reação a abordagens sintático-semânticas, cujo foco centrava-se nos mecanismos interfrásticos (entre as frases), os linguistas do texto, conforme ressalta Koch (2013), buscavam atender a outra demanda: o texto como unidade básica de comunicação/interação humana voltado para uma sociedade concreta. Além disso, prossegue a autora, não havia como negligenciar que o texto, nessa perspectiva, era considerado ação gerenciada por processos cognitivos.

Ao consideramos então os aspectos pragmáticos e sociocognitivos, assumimos que essa perspectiva de análise do texto revê algumas dicotomias (conceitos em relação de absoluta oposição), tais como falante e ouvinte, leitor e escritor, e emissor e receptor. Ora, se o sentido do texto é construído entre os/pelos sujeitos, a partir da integração entre leitor, texto e autor, podemos dizer que estamos diante de interagentes imbuídos de uma mesma tarefa: a construção conjunta de sentidos. Assim, fica claro perceber que ninguém é falante a todo tempo, tampouco assume o papel passivo de ser apenas ouvinte; do mesmo modo, um leitor não faz obrigatoriamente uma leitura linear, ele pode (e deve) se questionar, pesquisar, discordar, concordar e até escrever para o autor do texto, que se tornará, naquela prática comunicativa, um leitor (também ativo).

Esse ethos (modo de conceber) textual, ancorado na perspectiva pragmática, discursiva e sociocognitiva, vai ao encontro da noção de hipertexto, bastante explorada por linguistas que se dedicam ao estudo do texto nessa agenda. Marcuschi (2005), por exemplo, propõe uma revisitação a conceitos como coesão, coerência, linearidade e estrutura no ethos do hipertexto, visto que as práticas sociointeracionais se redimensionam nessa leitura. Ainda nessa dimensão, Xavier (2005) chama a atenção para um leitor mais autônomo, que se serve do texto a partir de suas necessidades (faz uma leitura “self-service”). Cavalcante (2005), por sua vez, reforça a importância do prefixo hiper, ao sinalizar que a cada novo acesso de leitura somos capazes de construir sentidos mais ampliados para o texto.

Em suma, podemos dizer que o texto [textum] não é o mesmo há muito tempo. Houve mudança na sua matéria-prima, nos costureiros, nas cores, nos formatos, nas texturas... Pode ser que as práticas escolares ainda digam o contrário (insistam no texto uniforme – no duplo sentido da palavra (texto padrão e textum igual para todos (mesma vestimenta para todos)), mas a emergência da interação, seja ela face a face ou mediada pela internet, colabora para leitores-escritores autônomos e com papéis bastante móveis, não é mesmo? Diz aí...

 

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Fontes:
ANTUNES, I. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola, 2007.

CAVALCANTE, M. C. B. Mapeamento e produção de sentido: os links no hipertexto. In: Marcuschi, L. A. & Xavier, A. C. (Orgs.). Hipertexto e gênero digitais: novas formas de construção do sentido. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

GNERRE, M. Linguagem, Escrita e Poder. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

KOCH, I. G. V. Introdução à linguística textual. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: Marcuschi, L. A. & Xavier, A. C. (Orgs.). Hipertexto e gênero digitais: novas formas de construção do sentido. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

XAVIER, A. C. Leitura, texto e hipertexto. In: Marcuschi, L. A. & Xavier, A. C. (Orgs.). Hipertexto e gênero digitais: novas formas de construção do sentido. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

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