Eu li esta frase quando cheguei pela primeira vez ao Brasil, em 2012. Apresentou-se como a promessa de um "professor" de língua alemã que oferecia seus serviços no quadro-negro de publicidade da UnB. Como um falante nativo alemão, fiquei extremamente surpreso e pensei: "Uau, deve ser uma nova abordagem, totalmente nova, para ensinar uma língua estrangeira!”

O objetivo da maioria dos alunos de L2 é falar essa idioma fluentemente. Mas, o que é ser “fluente”? O que exatamente significa isso? Eu encontrei a seguinte definição:

flu·en·te
adjetivo de dois gêneros
1. Que corre fácil e abundantemente; fluido.
2. [Figurado] Natural; espontâneo; fácil e abundante; que tem fluência (no falar).
Palavras relacionadas:
fluência, fluentemente, fluido, colódio, bem-falante, letra¹

Gostaria de completar esta definição conceitual dizendo que um falante fluente pode participar de longas conversas e entender a língua quando se fala em rádio, TV etc. Ele é capaz de descobrir o significado das palavras no contexto, no debate e ele usa/entende estruturas gramaticais complicadas com pouca ou nenhuma dificuldade.

Uma das perguntas que eu me fiz muitas vezes durante a minha atividade prática como professor de L2 é: até que ponto uma sala de aula de línguas serve para ensinar fluência em uma segunda língua? Ou é possível a todos, considerando o fato que cada estudante tem seu próprio mix de estilos de aprendizagem e técnicas?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que eu acredito fortemente na premissa básica para um processo de aprendizagem bem sucedida não estar exatamente na abordagem do ensino, mas na motivação do aprendiz mesmo. No entanto, a possibilidade de uma boa nota não é suficiente para manter a motivação do aluno para desenvolver um esforço. Idealmente, isso seria uma motivação intrínseca, com base em um certo prazer e uma satisfação que são conseguidos por intermédio da aprendizagem da língua. Essa motivação pode, por exemplo, basear-se na curiosidade de ter uma boa conversa com outros falantes desta língua durante a viagem, ou também a capacidade de ter uma conversa profissional com um parceiro de negócios em outro país. Na verdade, há bastante riqueza em todos esses possíveis motivos.

O próximo ponto que desejo mencionar é a qualidade do material de aprendizagem. Pessoalmente considero que, na sala de aula, uma ênfase especial deve ser colocada na qualidade do livro didático. Um bom livro didático torna possível para os alunos analisarem e se prepararem para as suas aulas em qualquer momento, permitindo a adaptação e improvisação, fornecendo idéias e atividades para aprendizagem. Como fonte primária para o aluno, ele precisa se ​​concentrar nas quatro habilidades de aprendizagem: escrever, ler, ouvir e falar. A combinação de todas essas habilidades promoverá a aquisição da língua, servindo finalmente como base profunda para uma fluência ao falar.

Todos nós sabemos que, infelizmente, ainda muitos dos livros didáticos utilizados em nossas escolas, hoje em dia, são baseados em uma abordagem gramatical, não oferecendo incentivos suficientes para conversa, muito menos fornecendo um contexto interessante e desafiador da vida real para motivar os alunos a falar. Talvez vocês irão concordar quando digo que um aluno realmente tem de falar a língua para alcançar fluência - eu não estou falando sobre repetição de palavras ou expressões escritas no quadro negro e "afixadas de algum modo" pelo professor. Eu estou falando sobre uma comunicação "livre", com outros alunos na sala de aula ou com o professor, desde que o conhecimento previamente adquirido permita.

Mas, quanto tempo se fica numa sala de aula, na verdade, para os alunos treinarem a fala? Vamos supor que, durante uma semana, a escola ofereça 4 aulas de inglês de 45min. Considerando o tempo que é suficiente para uma conversa real, um aluno provavelmente não vai falar mais do que 15 minutos por semana, no máximo. Isso é insuficiente para promover o falar, muito menos uma fluência. Além disso, muitos professores gostam de ouvir a si mesmos, em vez de deixar seus alunos falarem. E eu não me excluo, ao lembrar que acontece comigo, às vezes! Idealmente, um professor deve criar incentivos para uma discussão animada e só assumir o papel de "facilitador". Pequenos grupos de discussão dentro de uma classe podem reduzir o medo do indivíduo de falar. Outra possibilidade para promover a fluência seria ter horas de conversação, em que os alunos, por exemplo, apresentam breves apresentaçôes sobre temas específicos que eles têm preparados (e praticados!) em casa. E deixar os alunos se expressarem sobre os tópicos depois.

Muitos dos meus alunos me perguntam sobre a maneira melhor e mais rápida para melhorar a fluência. Eu, pessoalmente, sempre recomendo investir um mínimo de 20min adicionalmente em casa, para fazer exercícios - a cada dia. Outro esforço adicional e mais fácil que pode ser feito pelo aluno fora da sala de aula seria, por exemplo, assistir vídeos no youtube ou filmes, ou também ouvir música; será útil no que diz respeito à aquisição dessa linguagem. Aqui não é tão importante que esse “material” seja adaptado para o nível apropriado do aluno; o que importa é que, em si, cercar-se com a linguagem tanto quanto possível, a fim de desenvolver um sentimento para o idioma. Aqueles estudantes que realmente seguem este conselho e mantém essa continuidade durante um longo período de tempo (infelizmente são poucos) não só provam terem criado um vocabulário extenso, mas também apresentam um melhor desempenho em leitura, escrita, audição e fala, juntos resultando em uma maior fluência da língua do que os seus colegas.


A partir de minha própria experiência pessoal, eu sempre recomendo - se isso é possível para o aluno – viver por algum tempo em um país, no qual esta língua é falada como primeira língua. Fazendo um curso intensivo de língua lá, sendo cercado pela língua 24 horas do dia, confrontando situações inesperadas em que a língua precisa ser usada (mesmo que isso possa ser frustrante no início), aprendendo com os erros, e - se possível - conviver com outros alunos que enfrentam o mesmo desafio. É a melhor maneira possível de obter fluência em uma segunda língua ou língua estrangeira.

Durante as últimas semanas eu estava tentando entrar em contato com o professor que tinha oferecido a fluência na língua alemã dentro de 3 meses, mencionado no início deste artigo. Sem sucesso. Parece que ele não está fazendo esta promoção mais :(

 

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¹in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/fluentemente [consultado em 28-03-2014].

 

Texto produzido na disciplina de História do Ensino de Línguas no Brasil ministrada pelo professor José Carlos Paes de Almeida Filho na Universidade de Brasília.

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