“Isso nunca vai dar certo, professor!” “Acho que vai acabar virando uma bagunça!!!” “Como assim, professor, você não vai dirigir a discussão?” “Essa pra mim é nova. Usar celular na sala de aula...”

Entre afirmativas e indagações, manifestadas no plano verbal e, por vezes, nas ações não verbais, estava para ser construída uma história de sucesso no cenário de ensino de português como segunda língua.

Era uma vez, uma disciplina chamada “Introdução aos Multimeios”, ministrada aos/com os estudantes de Letras Português do Brasil como Segunda Língua (PBSL), da Universidade de Brasília.

No início, era tudo uma ideia de um professor, muito estimulado por uma colega-amiga de trabalho, que acabava de ingressar, como docente, em um universo acadêmico do qual fez parte há alguns bons anos: o curso de Letras PBSL. Essa ideia pouco a pouco conseguiu materializar-se em um gênero textual denominado Plano de Ensino, que, gradativamente, começou a integrar uma prática pedagógica um tanto diferenciada para os moldes tradicionais de ensino.

Do plano às ações, professor e estudantes desenvolveram conjuntamente atividades pedagógicas relativas ao ensino de português como segunda língua, e uma delas, logo de início, foi o uso do WhatsApp como ferramenta sociointeracional na ampliação da competência escritora dos estudantes. A proposta inicial era de lermos o texto “Materiais Didáticos no ensino de língua”, de Roxane Rojo, que focalizava, em síntese, as transformações pelas quais os materiais didáticos têm passado. No meio desse caminho, surgia a inclusão das ferramentas tecnológicas na agenda da linguística aplicada. Essas reflexões da autora possibilitaram-nos ampliar a concepção tradicional de ensino de texto, despertando-nos para práticas mais coletivas de aprendizagem, assim como a socialização digital seria capaz de propiciar.

Após essa leitura, os estudantes partiriam para a atividade denominada Partilha Tecnológica, em que deveriam publicar no WhatsApp da turma um comentário acerca da apreciação do texto, a fim de que pudéssemos gerar, com essa coleção de opiniões, um debate em sala de aula virtual. Naquele momento, para a minha surpresa, os estudantes encararam a tarefa como mais uma pertencente à demanda escolar: colocava-se um comentário em bloco, e de modo isolado da discussão, e com isso afastava-se do uso natural da ferramenta tecnológica. Ou seja, não havia diálogo entre os estudantes no debate do tema, mas uma série de opiniões sobre o texto em bloco, sem que houvesse qualquer conexão entre os tópicos e qualquer construção conjunta de sentidos.

Enquanto isso acontecia em nosso grupo, alguns alunos, bastante incomodados, me acionavam individualmente e manifestavam o incômodo pelo desvio da funcionalidade real do gênero WhatsApp, questionando, inclusive, o real cumprimento da tarefa proposta. Estrategicamente aguardei a manifestação dos alunos para realizar uma posterior mediação.

Chegado o momento da interação com os alunos, afirmei que deveríamos pressupor que a interação por meio dessa ferramenta deveria ser concebida por nós como atividade de ampliação das demandas escolares, não devendo ser considerada uma “obrigação” similar às tarefas pedagógicas tradicionais. Além disso, destaquei, na ocasião, que meu papel no grupo era o de um interagente como eles, mesmo que isso fosse um pouco difícil de se aceitar inicialmente, pois em um WhatsApp não há um líder que monopoliza a vez de falar e tampouco que distribui os momentos de fala.

Horas depois da mediação, que girou em torno do quanto havíamos ‘artificializado’ o gênero, tínhamos o acordo de todos os alunos quanto à inadequação das conversas e já conseguíamos interagir adequadamente sobre o tema do texto, que, nessa tarefa, funcionou também como tema motivador para propiciarmos uma interação digital, ampliando as nossas visões de mundo (e de leitura). Concluímos com essa prática que sua proposta poderia ser plenamente aplicada no cenário de ensino de português como segunda língua, a partir da criação de um grupo da turma e com posterior proposição de debate sobre temas cotidianos na cultura-alvo, como, por exemplo, o aumento do preço do combustível em Brasília, a desvalorização de nossa moeda corrente em relação ao dólar etc. E todos ficaram mais “felizes para ‘sempre’”!

Rodrigo Albuquerque
Doutor em Linguística e Professor do curso de PBSL (UnB)
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