Nota da equipe Sala

Ariella Alves - Presidente da APLIMA – trata de maneira muito didática e efetiva sobre as relações entre ensino de qualidade e a importância das Associações de Professores de Línguas. Além mostrar quais são, Ariella fala das principais funções dessas associações de professores.

 

Uma associação é qualquer iniciativa formal ou informal que reúne pessoas físicas ou outras sociedades jurídicas com objetivos comuns, visando superar dificuldades e gerar benefícios para os seus associados. É uma forma jurídica de legalizar a união de pessoas em torno de seus interesses. Sua constituição permite a construção de melhores condições do que aquelas que os indivíduos teriam isoladamente para a realização dos seus objetivos. Tratando-se de uma associação de professores de língua inglesa, cria-se uma comunidade capaz de promover newsletters, conferências, reuniões, workshops, que possibilitam a difusão das mais recentes pesquisas no campo de ELT (English Language Teaching). Trocar ideias em discussões e fóruns sobre tópicos atuais da teoria e prática, gera um intercâmbio de experiências de grande relevância entre profissionais de uma mesma área. Através de associações, podemos ampliar nossa rede de contatos e aprender uns com os outros, de diferentes regiões, países, sistemas e dividir semelhantes problemas e soluções sobre um determinado assunto. As vantagens não se esgotam com os seminários a preços reduzidos. Além dos newsletters que informam sobre o que há de mais novo em pesquisas e metodologias, existe também a divulgação sobre cursos na área, oportunidades de empregos, sugestões de atividades/projetos criativos e contatos com professores, inclusive de outras localidades, para dividir experiências. Por meio da associação, seria possível, por exemplo, criar um maior poder de pressão junto às autoridades competentes para a reflexão sobre a inclusão da disciplina de Linguística Aplicada ao Ensino de Idiomas nos cursos de licenciaturas, sobre a atual carga horária dedicada à disciplina, sobre os critérios de seleção de professores nos concursos e a eventual distribuição de aulas de inglês para professores não concursados, entre outras ações.

Uma associação desempenha uma função fundamental na formação de professores de língua inglesa. Esta por sua vez, envolve o domínio de diferentes áreas de conhecimento, incluindo o domínio da língua que ensina, e o domínio da metodologia necessária para fazer a aprendizagem da língua. As formações de professores existentes atualmente envolvem uma concepção errônea de formação continuada. Um exemplo clássico deste modelo de formação, quando existe um programa, são os cursos às vezes oferecidos pelas escolas particulares de línguas aos seus futuros ou atuais professores que visam simplesmente desenvolver a competência no uso do material de ensino adotado pela escola. O objetivo imediato é ensinar o professor a usar aquele material; quando este for substituído, haverá a necessidade de fazer outro curso. Geralmente não é oferecido aos professores um embasamento teórico consistente; buscam-se resultados imediatos que devem ser obtidos da maneira mais rápida e econômica possível. O que acontece nesses casos é na verdade somente um treinamento. Formação é diferente: busca a reflexão e o motivo por que uma ação é feita da maneira que é feita. Há, assim, uma preocupação com o embasamento teórico que subjaz à atividade do professor. Enquanto que o treinamento limita-se ao aqui e agora, a formação é a extensão e continuidade de um treinamento baseado metodologia de ensino de inglês como segunda língua.

As duas principais associações internacionais são a TESOL (Teachers of English to Speakers of Other Languages) com sede nos Estados Unidos, e a IAETEFL (International Association of Teachers of English as Second Language), com sede no Reino Unido. Ambas têm filiais e associados em vários países, SIGs (Special Interest Groups), boletins informativos e conferências anuais. A IAETFL, por exemplo, que foi fundada em 1967 no Reino Unido, tem o propósito de reunir, dar suporte e desenvolver profissionais de Ensino de Língua Inglesa por todo o mundo. Para esta finalidade, eles produzem um newsletter a cada dois meses, chamado Voices. Eles desenvolvem uma Conferência Anual Internacional e agrupam membros por interesses específicos que são chamados de SIGs, que também promovem conferências e tipicamente produzem dois ou três newsletters todos os anos. Portanto, é através dessas organizações que são disseminadas as últimas novidades da área, sobre o que há de mais novo e aceito em termo de conceitos sobre ensino e aprendizagem. Tornando-se membro, um professor se desenvolve como profissional e contribui para o desenvolvimento de professores do mundo todo através do grupo do qual ele participa e das taxas reduzidas de reconhecidas publicações como Teacher Trainer Journal e English Language Teaching Journal. Além disso, ele receberá cópias da IATEFL Voices, contendo artigos em ELT (English Language Teaching) e uma cópia de Conference Selections. Há também ofertas especiais como assinatura de English Teaching Professional incluído na taxa de associação.

No caso da Língua Inglesa, podemos observar um grande número de associações por todo o Brasil, acumulando avanços e ampliando horizontes para a comunidade docente. O BRAZ-TESOL, a associação nacional de professores de inglês, possui um escritório central em São Paulo, mas há escritórios regionais (chapters) que desenvolvem o mesmo trabalho em suas localidades. Possuem também vários SIGs e realizam uma convenção nacional a cada dois anos.

Vários estados brasileiros possuem associações que há vários anos, ou ainda recentemente, lutam em prol do desenvolvimento do ensino e aprendizagem do segundo idioma: APIRS, APCIESP, APLISC, APIES, APLIEMS, APLIESP, APLITINS, APLIEPAR, APLIMA, SALT etc.

Entretanto, há uma grande preocupação na continuidade dos nobres trabalhos desenvolvidos pelas associações. Estes trabalhos são desenvolvidos por professores voluntários em suas rotinas atarefadas e é cada vez mais difícil encontrar membros ativos para desenvolver tais tarefas. Tão importante quanto ter membros ativos em uma associação é ter membros com posições de liderança, não só pelos objetivos práticos, mas também pelo senso de desenvolver uma comunidade profissional. Precisa-se de pessoas com energia, disponibilidade e influência, que sejam responsáveis e comprometidas em querer fazer a diferença. A motivação e o trabalho com afinco irão gerar frutos de reconhecimento e satisfação profissional. Quanto mais responsabilidades forem delegadas aos dirigentes e alguns membros mais ativos, e se estes responsabilizarem-se pelos pontos acordados em reunião, haverá então menos sobrecarga de trabalho para os dirigentes em tarefas que poderiam ser melhor desempenhadas por outras pessoas. As vantagens de estar envolvido nesse tipo de trabalho geram um grande sentimento de satisfação, conquista, reconhecimento, recompensa, desenvolvimento pessoal/profissional e o sentimento de pertencer a uma comunidade coesa e bem preparada que tornam as tarefas menos árduas e mais envolventes. Outro aspecto de grande impacto nas formações continuadas é o fato de os professores terem um motivo real e imediato para refletirem suas práticas (o que normalmente é esquecido na correria das inúmeras aulas dadas por semana) por meio de participação ou apresentação de seminário. Principalmente quando se apresenta um seminário, refletimos sobre a melhor maneira de se compartilhar uma determinada ideia e esse trabalho de seleção e escolha, para enfrentar uma experiente audiência, irá acentuar a percepção sobre um dado assunto. Aquele que tem a coragem de enfrentar essa plateia sedenta de conhecimento receberá os frutos de melhorar a auto-estima, ter suas crenças desafiadas e expandidas e suas possibilidades de futuros trabalhos ampliadas. Ministrar palestras representa uma das maiores vantagens de oportunidades de desenvolvimento não só porque exige um olhar mais profundo sobre determinado tema, mas também tornando um profissional mais visível para futuros empregadores e colaboradores.

Atualmente, existe uma mobilização online de dirigentes de várias associações no Brasil, liderada por Almeida Filho, professor de Linguística Aplicada da UnB, que iniciou uma discussão sobre o futuro das associações. Segundo ele: “... para uma associação não ser apenas ativista, esvaziada de reflexão criteriosa, ela precisa ser independente e reflexiva. As associações regionais brasileiras atendem as necessidades do Brasil profundo e não somente da fatia superficial abastada das elites e escolas de línguas privilegiadas situadas nas grandes cidades de algumas partes do país. Um país se constrói sempre por inteiro e o contexto real de suas escolas é que abriga as observações e o conhecimento teórico de daí brota mediante pesquisas apropriadas. O Brasil não tem vocação para ser apenas usuário do conhecimento sobre os processos de ensinar e de aprender línguas produzido em outros países que vitalizam a nossa profissão. Nós podemos muito mais do que isso. Nós temos a determinação de que vamos irrigar com conhecimento útil, dialogador com a teoria que vem de fora, e made in Brazil, que nos dá identidade e dignidade”. Ele elaborou ainda um plano de trabalho para as associações que consiste em: criação de uma confederação, uma página eletrônica ou blogue para a divulgação de seus respectivos trabalhos e produções, um Exame Nacional de Proficiência Profissional para os professores e de Competência Comunicativa para aprendizes nos múltiplos contextos brasileiros, uma Revista Eletrônica que sirva como um guia de ensino e aprendizagem, fruto do trabalho de uma coletividade experiente, assim como um acervo de leituras recomendadas e um futuro Código de Ética para os profissionais do ensino de línguas.

O trabalho de mobilização de todas as associações para a criação de uma Confederação irá traçar, por meio da união das forças e experiências advindas de diferentes realidades, novos rumos para um caminho mais pautado na cientificidade do ensino de uma segunda língua. Segundo a sugestão de Almeida Filho: “Precisamos chamar os diretores de APLIs do Brasil para uma reunião de trabalho visando acordar um sistema de consultas simplificado entre presidentes, lançar um encontro das APLIs em 2012 com o propósito de estabelecer no ano seguinte uma Federação Brasileira de Associações de Professores de Línguas (FEBRALIN) com eventos conjuntos a cada 3 anos”. Através dessa congregação, será possível implementar um exame nacional de proficiência profissional, um exame que nos ajude a balizar a capacidade de uso da língua-alvo dos professores em serviço ou em formação inicial. Este projeto também consiste em um sistema de metas de proficiência expressas em faixas comunicacionais proposto para os diversos níveis e modalidades de escolas (ensino fundamental I e II, médio e licenciaturas). A criação e manutenção de uma Página Eletrônica ou Blogue é essencial para divulgar os trabalhos/eventos desenvolvidos e dividir experiências. A Revista digital, que alcançaria o máximo de professores, associados ou não, no Brasil e no mundo, serviria para apoiar com sucesso as diretorias na implementação de seus programas, tornando evidentes as falas, pesquisas e posicionamentos sobre os temas planejados, atingindo os professores nas mais diversas regiões. Nessa troca de conhecimentos, podemos ter um guia de boas práticas de ensino e de aprendizagem (em publicações ou em página eletrônica especial com esse propósito) para professores e alunos separadamente. Grupos-tarefa e comissões de especialistas, líderes e professores destacados por sua qualidade de ensino em exercício nas variadas esferas de ensino poderão estabelecer propostas/políticas alternativas que expressem o melhor juízo profissional e científico. A ideia de compormos um acervo para leituras recomendáveis, em linguagem acessível, para o professor se fortalecer na compreensão teórica e nos procedimentos práticos da reflexão formadora já poderia estar acontecendo. Não há no Brasil uma obra abrangente da teoria sobre os processos de aprender e de ensinar línguas disponível e num formato portátil para a formação de profissionais do presente com olho no futuro. A APLIESP e as demais associações cumpririam um papel relevante e balizadoras da qualidade que desejamos para o ensino de línguas no país, no qual se estabeleceria concursos, prêmios e incentivos anuais para publicações e atuações exemplares de professores de Inglês atuando no Brasil. Sugere-se ainda a conexão com diversas autoridades como o Conselho Britânico, secretários de educação, ministros e parlamentares, com o propósito de expor posições político-profissionais voltadas para a formação de professores reflexivos, críticos e comprometidos com a educação em língua estrangeira.

Uma nova realidade que aos poucos está se evidenciando é a paulatina valorização da língua inglesa no Brasil. A introdução da disciplina na prova do Enem representa uma motivação a mais para os alunos do ensino médio. A FUVEST aumentou o peso da prova de Inglês em seus exames, o que representa uma maior valorização do idioma. O Rio de Janeiro, por exemplo, com a contratação de 400 novos professores, planeja expandir o ensino do idioma através da introdução de inglês nas escolas do município desde o 1° ano do Ensino Fundamental, preparando as novas gerações para serem os anfitriões das Olimpíadas de 2016. Em São Paulo, no Brazilian British Centre, o Conselho Britânico realizou uma mesa redonda com representantes de 18 organizações interessadas no tema de uma mudança de paradigma na qualidade e quantidade de inglês falado no Brasil, tendo em vista as Olimpíadas 2016 e Copa do Mundo 2014. Tiveram representantes das universidades, BRAZ-TESOL, editoras, governos federal, estadual e municipal, Cambridge ESOL, telecentros e outros segmentos, discutindo-se os obstáculos ao aprimoramento do ensino-aprendizagem de inglês por parte de alunos (e professores), a formação inicial e continuada de professores e, ainda, a implementação de políticas públicas eficazes e apropriadas para a área de língua inglesa. O Brasil como um todo, seja com os eventos de olimpíadas e copa do mundo que estão por vir, ou com as refinarias sendo instaladas no nordeste do país, seja com o turismo ou com a equilibrada economia, está cada vez mais em evidência para o mundo e precisamos cada vez mais estreitar os laços com as outras culturas. Temos aí bandeiras importantes para empunhar nos anos à frente. Haveremos de enfrentar esses desafios com a destreza e vontade dos novos e a sabedoria dos mais experientes. E a partir da união de todas essas instâncias, é chegada a hora de juntarmos as forças para lutarmos pela universalização do ensino de inglês de qualidade em todas as esferas da nossa grande e carente sociedade.

 

Ariella Alves
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Referências Bibliográficas

  • MATOS, F.G. Desafios do Ensino de línguas estrangeiras. Disponível em <http://www.ccba.com.br/asp/cultura_texto.asp?idtexto=505>
  • IATEFL http://www.iatefl.org/
  • LEFFA, V. J. Aspectos políticos da formação do professor de línguas estrangeiras. In: LEFFA, Vilson J. (Org.). O professor de línguas estrangeiras; construindo a profissão. Pelotas, 2001, v. 1, p. 333-355.
  • FALCÃO, A. & SZESZTAY, M (Eds) Developing an Association for Language Teachers, British Council /IATEFL (2006) Disponível em <http://www.teachingenglish.org.uk/transform/books>

Comentários  

# Virgínia Freire 03-03-2011 22:04
Parabéns Ariella!
Excelente artigo e bastante pertinente. O seu trabalho junto a APLIMA só enobrece a nossa classe, nos enriquece e nos torna mais unidos. Keep on!!
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# Ariella 05-05-2011 00:59
Só agora li seu comentário no meu artigo da sala. Adorei, obrigada pelo suporte...
Um abraço

Ariella
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# Jane MB Ewerton 05-03-2011 18:41
Muito bom seu artigo, Ariella. Com a criação da Aplima, nós professores só temos a ganhar. Parabéns.
Jane Ewerton
Professora e Tradutora de inglês -IFMA.
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# Ariella 05-05-2011 01:01
Obrigada pela força... que bom que o nosso trabalho tem contribuído...
Um abraço
Ariella
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# Vilma Diniz de Souza 08-03-2011 17:10
Parabéns Ariella!
Pelo artigo e pela iniciativa da APLIMA, estavámos precisando mesmo de um local de incentivo ao ensino de Língua Inglesa.
Vilma Souza
Professora do IFMA
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# Ariella 05-05-2011 01:04
Que bom que vocês gostram do artigo, fico feliz pelas felicitações, obrigada.
Um abraço
Ariella
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# isabela athias rachc 01-04-2013 14:49
Boa tarde!
estou procurando um grande amigo da minha famila,
Professor Lauro de ingles,ele é do Maranhão,deve ter em torno
de 65 anos,
desculpe a falta de mais detalhes...
desde ja,agradeço
Isabela
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