Nota da equipe Sala

Neste 3º texto do trio de artigos reflexivos sobre a prova de língua estrangeira do ENEM, o prof. Dr. Almeida Filho faz uma análise pós prova sob os efeitos retroativos dessa avaliação, além de apontar ações necessárias para as próximas edições do ENEM.

 

No final de setembro passado publiquei aqui mesmo na SALA (vide o texto ainda disaponível na seção Estante da SALA) uma interpretação das projeções a mim sugeridas pelo edital do ENEM 2010 contendo a estrutura e descrição de habilidades para a nova prova de LE a partir desse ano no Exame Nacional do Ensino Médio. A prova foi realizada no início do mês de novembro por quase 5 milhões de candidatos e dela tivemos amplo conhecimento através do noticiário da mídia. Tanto a logística de aplicação quanto a prova de LE recém executadas precisam da nossa análise, compreensão e propostas.

Esta análise pessoal ocorre após o excelente exercício crítico sobre a Prova de LE realizado na Oficina da FEUSP, organizada com pioneirismo e agilidade pelas professoras Gretel Fernández e Lívia Donnini daquela Faculdade com a minha participação. Os macro resultados desse importante exercício crítico está também publicado neste Portal na edição de novembro.

Volto a esta análise solo porque era essa minha intenção desde o começo quando publiquei o artigo sobre as proposições do Exame muito antes da efetiva primeira aplicação do instrumento deste ano e sem qualquer conhecimento sobre como seriam de fato o formato e o conteúdo da prova de línguas inaugurada como parte integrante do ENEM em 2010. Nesta análise volto o olhar para o contraste entre o que a prova de LE suscitava como promessa e a realidade do modelo inaugural nela praticado.

A prova de LE precisa ser colocada na relativa pequena dimensão que detém no conjunto de questôes da grande área de Linguagens, seus códigos e tecnologias. Embora pequena no conjunto das questões, a prova coroa três longos anos de investimentos educacionais na aprendizagem e no ensino de línguas ditas estrangeiras no currículo. Por enquanto, os idiomas foram o inglês e o espanhol, mas há sinais promissores de que mais línguas praticadas na escolarização brasileira serão incluídas nos próximos anos. Assumo também que o ENEM deve evoluir para se tornar um instrumento válido, confiável e estimulador de práticas profissionais renovadoras em sendo um exame praticável em cada fase galgada no urgente avanço qualitativo da escola brasileira.

Cinco questões de compreensão de pequenos textos escritos na língua-alvo para escolha múltipla em português com instruções em português foi tudo o que logramos nessa primeira versão da prova de LE. Poderia ser pior? Poderia. Mas também poderia ser imensamente melhor em vários sentidos. Cada área disciplinar tem suas especificidades, sua história , seus expoentes teóricos, seus livros importantes, seus paradigmas competitivos e seus praticantes graduados reconhecidos no país. Pouco a pouco o INEP poderá se acercar deles para evoluir na sua construção de um instrumento de avaliação válido segundo pressupostos teóricos defensáveis na nossa época. Avaliar é uma das materialidades nobres do ensino produzido nas nossas escolas e nele precisamos investir nossos esforços por ser de máxima força na modulação do ensino. Há teoria e práticas fundamentadas de avaliação que jamais podem ser confundidas como algo menor do processo de educar. No ensino de línguas no Brasil temos um precedente que nos orgulha: o Exame Internacional CELPE-Bras para avaliar desempenho integral comunicativo em Português como Língua Estrangeira, hoje aplicado pelo INEP.

A prova de LE com as características que teve nesta primeira versão precisa avançar bastante nos anos vindouros e já podemos antecipar aqui algumas aberturas para o futuro renovador que nos aguarda. Não estamos nos referindo a uma prova falha tecnicamente na avaliação de competência de leitura de textos curtos veiculados na internet. A escolha dos gêneros na prova deste ano não nos decepcionou. A proposta de avaliar uma capacidade comunicativa intercultural é que não foi atingida ainda. Embora avaliar compreensão na língua materna seja justificável no plano simples de se saber o que foi entendido, ensinar uma nova língua não pode permanecer estrangeira no mesmo índice com que foi iniciada sua aprendizagem. Contextos de uso mais amplo com instruções nessa língua também fazem parte da aprendizagem e do ensino. Uma língua hoje em dia só se justifica socialmente se se puser ao alcance de uso pelos aprendizes. Para vir a ser usada, a nova língua precisa circular nas salas em textos que se leem e que se ouvem e sobre os quais se fala e se escreve com instruções na própria L-alvo em atividades que se constroem crescentemente no idioma pretendido. O exame precisa sinalizar isso inequivocamente se aspirar a que esse instrumento opere continuamente como motor de práticas que valem a pena na sala de aula por sua relevância para nossas vidas, que fazem alcançar mais longe na aquisição de um novo idioma cujas culturas reconhecemos com tolerância ou, ainda melhor, disposição, que dão motivos animadores para as aulas e para os esforços que os aprendizes precisam empreender, que tiram o medo de estar numa nova língua, que nos livram do limitante monolinguismo que ainda acomete a maioria dos cidadãos brasileiros.

A prova do ENEM deve apontar inequivocamente para a valorização de usos justificáveis de novas línguas adquiridas e suas culturas. Podemos começar ajustando a prova para funcionar melhor nela mesma. Podemos avançar solicitando que após ler e ouvir se possa escrever um pequeno excerto que mostre a inserção desses alunos e podemos até reproduzir alguma oralidade, por escrito enquanto nâo resolvermos restaurar a oralidade constitutiva de qualquer língua e que é patrimônio cultural central na cultura brasileira e promissora na nova era era digital que se avizinha. Precisamos de uma política de longo prazo para o Português língua nacional, para o Português língua segunda e estrangeira, para as línguas estrangeiras que vão ocupar a disciplina Língua Estrangeira no currículo das escolas. Precisamos com urgência de um exame nacional para aferir metas de aquisição das línguas, de um exame profissional que indique competências desejáveis nos profissionais. Temos urgência de iniciar ações para chegarmos à qualidade também no ensino das línguas e os ministérios da Educação e das Relações Exteriores (no caso do PLE) podem ter papéis decisivos nessa direção apoiados pelas associações relevantes e pelos centros universitários produtores de pesquisa aplicada no âmbito do ensino de línguas e da Linguística Aplicada. Mãos estendidas ao INEP para darmos novos passos na prova de língua em geral e de língua estrangeira em particular.

 

José Carlos Paes Almeida Filho
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