No dia 16 de novembro o CEPEL - Centro de Estudos e Pesquisas em Ensino de Línguas da Faculdade de Educação da USP realizou, sob a responsabilidade dos Professores Drs. Isabel Gretel M. Eres Fernández (FEUSP), Lívia de Araújo Donnini Rodrigues (FEUSP) e José Carlos Paes de Almeida Filho (UnB), uma oficina na qual se discutiram as provas de Língua Estrangeira do Enem 2010.

Participaram do evento cerca de 60 pessoas – entre professores pesquisadores, professores de escolas regulares, alunos de Licenciatura em LE, alunos de pós-graduação e profissionais de editoras – que debateram, durante 3 horas, as questões propostas no exame à luz da matriz de competências e habilidades publicada anteriormente pelo Inep e a própria matriz adotada pelo INEP.

Vários pontos foram ressaltados pelos expositores e pelos assistentes tanto no momento de análise das questões incluídas nas provas quanto durante as considerações feitas acerca das relações entre o exame, a matriz oficial, os documentos que norteiam o ensino de línguas no nível médio e os objetivos da última etapa da Educação Básica.

Sobre o exame em si, o grupo concordou ser ele de grande importância para a área, uma vez que constitui, em certa medida, um reconhecimento da disciplina LE como componente curricular.

Já em relação especificamente às provas, feitas após sete anos de estudo da língua inglesa e de três da língua espanhola, nos melhores dos casos, e considerando que ela é apenas uma pequena parte da prova da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, constatou-se haver pontos positivos, mas, também, vários pontos negativos.  Assim, por um lado, foram incluídos textos da atualidade em diferentes gêneros (artigo digital, letra de canção, material publicitário, artigo sobre variedades, cartão postal publicitário, texto informativo e texto jornalístico) seguidos de questões de compreensão formuladas em português. Apesar da presença da língua materna, os participantes entenderam que a prova mobiliza conteúdos lexicais e gramaticais não como fins em si mesmos, mas sim na sua manifestação contextualizada e em uso. Da mesma forma, a diversidade de fontes afasta a visão hegemônica de cultura associada a uma variedade linguística dominante e, ao mesmo tempo, essa diversidade não implica o conhecimento muito específico de usos regionais ou de grupos sociais determinados.

Por outro lado, várias dúvidas e questionamentos indicam que ainda permanecem visões reducionistas acerca do ensino de LE e de seus objetivos. Assim, alguns dos pontos merecedores de reflexão arrolados são: a) é só isso o que se espera de um aluno que estudou uma LE durante, no mínimo, 3 anos?; b) o que é possível capturar em termos de aprendizagem com apenas 5 perguntas?; c) se existe uma legislação (LDB-EN 9394/96) que afirma o “plurilinguismo” (a oferta de mais de uma língua no currículo), podemos prever outras opções além do inglês e do espanhol no exame?; d) qual o efeito retroativo dessas provas considerando que os conteúdos lexicais e gramaticais relacionados à competência leitora devem firmar seu lugar no ensino médio?; e e) qual o lugar da oralidade, da interação, da multimodalidade e da pluralidade cultural e linguística, tanto no exame quanto no ensino médio?

Assim, apesar de não terem sido verificadas cobranças de conhecimentos descontextualizados do sistema gramatical da LE, o exame restringiu-se à leitura, com questões elaboradas todas elas em língua portuguesa.  Nesse sentido, a prova joga por terra a esperança de avaliar o uso, assim como estabelece como pano de fundo uma concepção limitada de aprender/vivenciar uma nova língua, amenizada com a escolha de tipologia e gêneros textuais escritos variados.

Por fim, diversos aspectos ainda merecem reflexões como, por exemplo: qual foi a efetiva participação de professores dessas línguas na concepção do exame – e como pode ser essa participação daqui para o futuro? Mesmo estando em um tempo de unificação, marcado por ações de avaliação em âmbito federal, não se poderia pensar em implementar exames e provas regionais que façam jus aos nossos anseios e possam mostrar a diferença que faz um instrumento justo e atualizado de avaliação ao cabo de 3 anos de ensino médio?

Em suma, urgem ações efetivas, não só no sentido de aprimorar esse exame mas, também, de voltar o olhar sobre a educação básica e especialmente sobre o ensino médio no sentido de, por exemplo, criar um sistema de metas para os diversos níveis de escolaridade e adiantamento, assim como é preciso lançar um exame de aquisição para estudantes (e professores) com espaço para se demonstrarem capacidade de uso e atitude intercultural acoplada.

 

Gretel Fernández, Livia Donnini e José Carlos Almeida Filho

Comentários  

# Gonzalo Abio 14-12-2010 15:23
Excelente relato. Assim ficamos informados do que foi apresentado nessas reflexões realizadas e de tema tão importante. Obrigado!
Embora não seja sobre línguas estrangeiras, acredito que seria interessante realizar um colóquio ou seminário para analisar também os resultados de Brasil no PISA 2009, pelo menos na área de leitura.
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# Prof. João Avelino 14-12-2010 15:36
Estou totalmente de acordo. Como é possível avaliar conhecimento de LE com apenas 5 perguntinhas desestruturadas? Isso faz com que os alunos não aprofundem seu aprendizado.
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+1 # Elisa anhaia 14-12-2010 15:40
Concordo plenamente com o que foi escrito e quero dizer que remeti uma carta ao Sr.Ministro da Educação através da Sra Senadora Marisa Serrano pedindo que revejam a prova de língua estrangeira no enem.Cinco questões em uma prova de 180 me parece inconcebivel.Além disso,falta muito para que ela avalie a capacidade do aluno.Se alguém quiser ter acesso a carta é só me enviar o endereço eletrônico e eu a remeto.Atenciosamente.
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+1 # Jayfferson 20-09-2011 22:15
Oi, Elisa anhaia.

Eu gostaria de dar uma olhada na carta.
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# Dayse 16-10-2014 18:08
também gostaria de ver a carta


Obrigada!
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+1 # Talita Torres 15-12-2010 10:27
Obrigada por compartir as informações.
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-1 # Soledad Montalbetti 15-12-2010 17:23
A prova me pareceu lamentável...perguntas em portugués? Para avaliar conhecimentos de lingua estrangeira dessa forma é melhor não avaliar...
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+1 # Prof. Cândida 15-12-2010 22:39
Críticas pertinentes e muito necessárias. Pareceu-me muito injusto com nossos alunos e um desrespeito com nosso trabalho em sala de aula.Realmente é preciso reavaliar!E o momento é este.
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+1 # Suely C Catharino 20-12-2010 13:18
Considerei pertinente as observações e acrescentaria que não percebi motivação na metodologia praticada.Ainda é um misto do tradicional com mesclas de cara nova. falta muito, muito mesmo para realmente atingirmos o objetivo proposto nas DCN e OCNEM em se tratando de ensino e aprendizagem de língua estrangeiras. creio que um esforço nacional nesse sentido é fundamental....
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# Joseane Martins 23-12-2010 11:25
Concordo plenamente. Inclusive, acredito que devemos aprofundar mais essa discussão através de seminários e/ou foruns a fim de externar nossa indignação diante deste fato.
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# Miriam Barillas 02-02-2011 15:16
Fiquei desnorteada com o número e tipo de questões apresentadas, isso bem “corroborar”, para o aluno, a falsa idéia de que não é necessário estudar espanhol, para o Enem.

Como professora de Línguas Estrangeiras, fico indignada e espero que possamos nos unir para evitar que as LEs NÃO SEJAM MERAS COADJUVANTES NO ENEM!
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# Edivan 22-06-2013 01:35
Pergunta-se?
como um país que pretende alcançar níveis melhores no que diz respeito à educação tem no conjunto de provas do ENEM uma avaliação como apenas cinco questões enquanto outras tem um número exageradamente grande? não seria a oportunidade de avaliar o aluno de forma mais pedagogicamente correta?

professores, pedagogos, alunos e quem mais se interessa por educação, NÃO FICA DE FORA O MEC, vamos trabalhar na possibilidade de melhorar esta avaliação?

MATEMATICAMENTE NÃO ESTÁ ERRADO?

OU NÃO TEM MATEMÁTICO NESTE NEGOCIO OU TEM DE MAIS.

EM PAÍSES AVANÇADOS CERTAMENTE ESTE TIPO DE EXAME NÃO DEIXARIA DE FORA A OBRIGATORIEDADE DE PELO MENOS DUAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS.



VOU ESPERAR
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